Há palavras acesas como barcos...


"Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar]
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita


Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


"You are welcome to Elsinore", poema de Mário Cesariny


Fotografia de Nastya Savelievskih, intitulada "Words through the glass": http://www.photoforum.ru/


2 comentários:

Dalaila disse...

É sempre bom lembrar Mario Cesariny, este poema é magnífico, que até me faltam as palavras para o descrever.

Há sempre uma palavra para alguma situação, mas tem que ser sentida quando dita, escrita, desenhada, pintada, sussurrada, delineada.

Há palavras que não existem, mas inventamos, porque podemos inventar tudo aquilo que quisermos, no país dos sonhos.

Há tudo entre as palavras, é com as palavras que abraçamos a escrita, que desenhamos expressões, que nos libertamos...

Obrigada por teres sempre palavras.

lupussignatus disse...

Olá Dalaila!

Este poema é um diamante em bruto!

Preciso de ser bem mastigado, digerido, para que se sinta o sal das palavras...:)

Cesariny era um génio inconformado que merece sempre ser relebrado.

Não tens que agradecer. Faço-o com gosto e prazer. Exactamente o mesmo sentimento com que leio e inspiro os comentários de quem aqui vem arquitectar afectos...

Fim de semana diamantífero :)