Mãos-substantivos...


"A Mabel.
Com a passagem do tempo aprendi a esquecer as suas palavras-olhos, a dimensão dos seus adjectivos-lábios, a nitidez das suas mãos-substantivos. Com a passagem do tempo, passou o tempo sobre os meus passos, e eu fui-me enchendo de esquecimentos que me foram esquecendo. A cidade de que falei já não existe, nem as ruas, nem a loja das mudas, nem as gravatas largas como remos, nem as palmeiras anãs, nem a atmosfera proustiana livre de decadências. Tudo sucumbiu. A música, o salão de bailes, o cão inclinado junto do gramofone. Tudo se perdeu, perdi. Perdeu-se há que tempos o inchaço do meu olho, mas permanece o hematoma da alma e alguma coisa falta, Mabel, alguma coisa falta, e por isso uma pessoa anda pela vida fora caminhando como um insecto coxo, como uma lagartixa sem rabo, ou coisa assim."


Luís Sepúlveda, in "Encontro de Amor num País em Guerra", Edições ASA
Fotografia de Evgeny Brook, denominada "Body and Hands": http://www.photoforum.ru/

3 comentários:

Dalaila disse...

è sempre tão bom ler, reler, passar olhos, e curvar-me nos encantos das palavras de Luís Sepúlveda

lupussignatus disse...

Olá Dalaila!

Sepúlveda é o tipo de escritor que me apraz: comprometido com causas.

Não escreve com artifícios. Vai direito e directo ao assunto. Sem rodeios.

Este livro de contos é uma das mais belas obras dele. Mas há outras, felizmente. Como "O Velho que Lia Romances de Amor", por exemplo.

Em suma: um autor que vale a pena descobrir.

Dalaila disse...

Eu já li vários livros dele, e gosto muito, aluiás como quase todos os ecritores da américa latina, paises que o chão vive com gente, países que entram no coração, mesmo nunca tido oportunidade de visitar.
O velho que lia romances de amor, é magnifico, de uma simplicidade, tocante.

As causas dele, são muito familiares com as minhas,