A solidariedade contagia



"É preciso fazer da solidariedade fraternal um problema central. O egoísmo mostra-se certamente contagioso, mas a solidariedade pode sê-lo também."

Edgar Morin, filósofo

Adormecendo...



"Depois de o dia me ter cansado,
o meu ardente desejo,
complacente,
a estrela da noite
como uma criança fatigada acolherá.

Mãos, deixai de trabalhar;
cabeça, deixai de pensar.
Agora, todos os meus sentidos
anseiam por repousar.

A alma não vigiada
deseja voar livremente
e submergir-se uma e mil vezes nas
profundidades
do círculo mágico da noite."

"Adormecendo", de Herman Hesse

O tecido dos sonhos



"Somos feitos com o tecido dos sonhos."

André Malraux, escritor francês (1901-1976)

Setembro



"O jardim está triste,
a chuva fria encharca as flores.
O Verão estremece em silêncio
à espera do seu fim.

Folhas douradas gotejam,
uma depois da outra, da alta acácia.
O Verão sorri, assombrado e exausto,
no sonho agonizante que foi o seu jardim.

Ainda pára algum tempo junto ás rosas,
ansiando pelo descanso;
lentamente vai fechando
os seus (grandes) olhos cansados."


"Setembro", de Herman Hesse

Uma noite com Mahler...



5ª Sinfonia em Dó sostenido menor, Adagietto, de G. Mahler. Quatro Últimas Canções (Fruhling, September, Beim Schlafengehn, de Herman Hesse e Im Abendrot, de Joseph vom Eichendorff), de Richard Strauss. Variações Enigma, de E. Elgar.
Este foi o programa eminentemente romântico que a Orquestra Clássica de Espinho, dirigida pelo maestro Cesário Costa, ontem interpretou no Auditório da Academia de Música da cidade para uma plateia constituída por muitos jovens. A soprano Ingrid Kaiserfeld esteve a um excelente nível ao cantar, plena de vigor e sentimento, aquela que é uma das obras mais representativas de Strauss.
No entanto, para um leigo como eu, que da música sabe quase nada, o que mais me impressionou na noite de claves à deriva foi, sem dúvida, o intimismo e a melancolia de Mahler. As suas notas fizeram-me vogar no tempo e no espaço...

Primavera



"Em sombrias cavernas
sonhei muito tempo
com as tuas árvores e tuas brisas azuladas,
com o teu aroma e com o canto das aves.

Agora revelas-te,
resplandecente e adornada,
banhada pela luz,
como um milagre perante os meus olhos.

Reconheces-me,
atrais-me ternamente para ti,
a tua divina presença
faz tremer o meu corpo inteiro."


"Primavera", de Herman Hesse (1877-1962)

Agir



"O reconhecimento da realidade é perceber a necessidade de agir."

Mahatma Gandhi

Contra o deserto verde...



A Rede Alerta Contra o Deserto Verde, movimento com origem no Brasil, vem a Portugal denunciar o monocultivo de eucaliptos e as consequências nefastas que este traz quer em termos sociais quer ao nível da biodiversidade. Hoje, dia 29 de Abril, em Lisboa, na Cooperativa Crew Hassan, Rua Portas de Santo Antão, nº 159, 18h30m. Dia 2 de Maio, em Coimbra, no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Sala de Seminários, Piso 2, pelas 16 horas. Dia 3 de Maio, pelas 21horas, na Casa Viva, no Porto, sita na Praça do Marquês, nº 167, haverá tempo e espaço para debates, documentários sobre justiça ambiental e uma exposição.

De boas intenções está a terra cheia...





"As boas intenções têm sido a ruína do mundo. As únicas pessoas que realizaram qualquer coisa foram aquelas que não tiveram intenção alguma."

Óscar Wilde, escritor

Viagem ao centro do coração



"As grandes viagens pertencem aos territórios do coração."

Baptista Bastos, escritor e jornalista

Outro chão



É com pequeninos
e insignificantes
gestos
que construímos
e solidificámos
a casa do futuro

Na palma
das mãos
abrem-se linhas
que tecem
novos
e promissores
horizontes

Linhas
cruzadas
desconexas
sobrepostas
e insubmissas

Linhas
que trilham
o impossível
nessa astral
viagem
que é o Ser

Tivéssemos
nós asas
para sobrevoarmos
os dias
que pisoteámos
com desdém

Outro chão se ergueria


V. Solteiro, 26.04.07

A matemática existencial



"Na matemática existencial, esta experiência assume a forma de duas equações elementares: o grau de lentidão é directamente proporcional à intensidade da memória; o grau da velocidade é directamente proporcional à intesidade do esquecimento."

Milan Kundera, in "A lentidão"

O rio



"O trabalho é como um rio. Está-se acabando e o que vem atrás é ainda um rio."

Mia Couto, in "Estórias Abensonhadas"

Uma secreta miséria



"Hoje, mais dramática do que a situação dos explorados, é a situação daqueles que já nem sequer são exploráveis porque são completamente postos à margem. Cada vez há mais criaturas sentadas, sem nada para fazer, sofrendo uma miséria secreta."

Urbano Tavares Rodrigues, escritor

De mãos dadas com Liberdade



Abril flui
em cada vogal

Abril chora
em cada pétala
de orvalho

Abril jorra luz
em todos os becos

Abril floresce
na alva madrugada

Abril amanhece
em cada esperança

Abril cresce
na temperança

Abril frutifica
a árvore
da fraternidade

Abril dá alento
porque fala verdade

Abril é muito mais que
cheiro a cravos

Abril é todo o jardim

onde passeamos
de mãos dadas
com Liberdade

V. Solteiro, 24.04.07

Deixa que a eternidade te habite...


"Não tenhas pena de ser mortal e de não conheceres a eternidade. Porque a eternidade está em ti, no momento incrível de te desprenderes do teu corpo, da sua miséria e estrume, e de pensares a ti mesmo e te sentires ser. A eternidade mora em nós e na vida, deixa apenas que ela se diga e te habite."

Vergílio Ferreira, escritor

Os mortos podem dançar!



Ora aqui está um daqueles grupos musicais e uma daquelas vozes aos quais é impossível ficar indiferente. Foi há muitos anos atrás que os descobri...Os Cocteau Twins fizeram relembrar-me estes sons cujas raízes só são possíveis descobrir no âmago da terra...Chamam-se Dead Can Dance. A voz sublime é de Lisa Gerrard.

http://www.youtube.com/watch?v=NQvu0XiwZk4

http://pt.wikipedia.org/wiki/Dead_Can_Dance

Os primos de Cocteau



Graças ao Luís Enrique, do http://barcadachuva.blogspot.com este fim de semana voltei a ouvir uma banda de que gosto particularmente. Pela sua originalidade e pelo som etéreo. Pelo experimentalismo, também. Esta é uma das minhas músicas favoritas. Elisabeth Fraser, a voz e a alma dos Cocteau Twins, é, além de um portento ao nível interpretativo (as vibrações da sua voz parecem irreais e surreais...), uma fonte de magia e mistiscismo. A sua voz é o seu coração. A sua voz é uma fonte de novas linguagens. Cristalinas. Que não tem barreiras ou obstáculos - transcende-se em cada nota.

http://www.youtube.com/watch?v=E8gJkc7ZfVQ

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cocteau_Twins

Amor é a palavra macerada



"Porque foi uma palavra tão prometedora crucificada no madeiro da obrigação, ferida por deveres, estrangulada pela hipocrisia, esmagada pelos hábitos? Amor é a palavra mais macerada em todas as línguas."

Richard Bach, escritor

De onde nasce o silêncio...



Silenciosamente
absorvo
todas as sílabas
que se desprendem
dos ramos
do quotidiano

Silenciosamente
interiorizo
a ideia
recorrente
de morte
que o sol
irradia

Silenciosamente
soletro
com deleite
a vida
que se esconde
nos líquenes

Silenciosamente
sorvo
com delícia
os estranhos ruídos
que o motor
do coração
liberta

Silenciosamente
ligo
a ignição
dos sentidos
e coloco
a caravana
da poesia
em movimento

Silenciosamente

Enquanto
a noite
dorme

V. Solteiro, 20.04.07

Ardea cinerea



(A uma lagoa que me viu nascer, habitat de todos os sonhos e utopias)

Como o arado
revolve a terra
quente e húmida
assim a garça real
sulca o céu
vestido de chumbo

A silhueta do poente
reflecte-se
nos seus lânguidos
gemidos
súplica içada
ao mastro
da Humanidade

Vista cá do fundo
do solo
em que me dissolvo
a sua presença
luminiscente
lembra-me
as asas
de um querubim

As suas ressonâncias
graves e côncavas
ecoam pela lagoa
desvanecendo-se
no tremor do caniço

Estes são os despojos
de um dia
que voou num turbilhão
de sedimentos
e veio pousar
levemente
nas asas da memória

V. Solteiro, 20.04.07

Desejo



Acendes a noite
do deslumbramento
com os dedos
andarilhos
deambulando
pelo corpo
de um navio

Assim vista
da amurada
os teus lábios
assemelham-se
a bússolas
descontroladas
pela fogueira
dos astros

Ainda sinto
o sal cristalino
que se soltou
da tua língua
astrolábio
encadeado
pelas ondas
do desejo

V. Solteiro, 18.04.07




Coração-cinza, coração-brasa



"Cinza vira brasa no teu coração."

Mia Couto, in "Estórias Abensonhadas"

A evaporação da vida



"Tudo se evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espectáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu."

Fernando Pessoa

Os mergulhos da alma



"Os pressentimentos são os rápidos mergulhos que a alma dá nesta corrente universal que é a vida."

Paulo Coelho, in "O Alquimista"

Inquietação



Pressurosos
correm
pelas pregas
do litoral
indiferentes
a búzios
e anénomas
que dão á costa
dos murmúrios

Soletram
vocábulos
de medo
e inscrevem
na areia
o rosto
da solidão

De repente

estacam

absortos

siderados

pelos ecos
da maresia
e com a música
composta
pela brisa
vespertina


É com os pilritos
que divido
o sal
da inquietação


V. Solteiro, 17.04.07

Sombras



"Somos miserável sombra a querer iluminar-se de presença humana."

Teixeira de Pascoaes, poeta

O último voo



Exausta
e exangue
as órbitas
desalinhadas
do céu
cegas
de tanto sol
e maresia
a gaivina
descansava
nas ondulações
da areia
do seu último voo



É triste
sentir
o nosso destino
de plumas
reflectido
nas articulações
e nas membranas
de um pássaro

de sonhos

V. Solteiro, 16.04.07

O húmus do desejo


"Quando não se pode ter o muito que se quer, deve-se querer muito ao pouco que se tem."

Raúl Brandão, escritor

Adiados



"Passamos o tempo a adiar, a adiar as coisas. Adiamos a felicidade como se nos sentíssemos bem neste mundo."

Augusto Abelaira, escritor

Deixar de pensar o mundo...



"É preciso deixar de pensar o mundo para tentar transformá-lo."

Feuerbach, filósofo

À Noite



Mordo
os lábios
da noite
até sentir
o sangue
fluir
como um rio
nas artérias
do sol

À noite
todas as correntes
ardem
no céu da tua boca


V. Solteiro, 13.04.07

A vida...



"A vida é o que acontece enquanto fazemos planos para o futuro."

John Lennon

Os sons da ruralidade



Quem disse que o interior é um marasmo? Há quem reme contra a corrente...
Imperdível. Assim se pode classificar o programa do Festival Sons e Ruralidades. Que já vai na segunda edição. De 27 de Abril a 1 de Maio. Pavilhão Multiusos. Em Vimioso. Organização da associação ALDEIA, da AEPGA, Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino e Câmara Municipal de Vimioso.

http://www.aldeia.org/portal/PT/5/EID/54/DETID/2/default.aspx

Os sonhos



Os sonhos
são presentes
que o futuro
concede
aos homens
que tecem
as raízes
da fraternidade

Os sonhos
são presentes
inacabados
de laços simples
e multicolores
oferecidos
a crianças-
solstício

Os sonhos
podem ser também
um presente contínuo
ou um pretérito
im-perfeito

Haste
filamento
corola
folha

Os sonhos
são sementes
deste chão
que não nomeio


V. Solteiro, 12.04.07


* Imagem: O Sonho, de Pablo Picasso.

O pior do mundo são os indiferentes!



"E o pior do mundo são os indiferentes. Melhor dito, os que nos provocam indiferença. 'Nem sim nem sopas', tanto faz, estar lá ou não é indiferente. Conheço centenas de pessoas assim. Gente que desistiu de lutar pelo que quer que seja e se limita a 'fazer a vidinha' na expectativa de passar despercebido e morrer em paz, gente que quer agradar a toda a gente, gente que produz para não incomodar, gente que se acomoda ao que alguém já produziu. São os 'yes man', os 'sim, senhor ministro', os 'cargos intermédios', até á eternidade."

Pedro Rolo Duarte, jornalista, in revista DNA

O oxigénio da utopia



O mal seca
e mirra
perante a seiva
das palavras

Esse líquido
rumoroso
e cantabile
é uma fonte
de cristalinas
e renovadas
esperanças

o seu movimento
lento e
perpendicular
inspira na terra
os mais secretos
frutos

junto à frondosa
alfarrobeira
a nora
prossegue o seu destino
de ser gente

ida e volta
início e recomeço

Em eterno retorno

Assim é o oxigénio
da utopia


V. Solteiro, 11.04.07



O mundo na sua plenitude



"Eu quero que os portugueses sejam candidatos a alguma coisa que acho interessante: candidatos a entender o mundo na sua plenitude."


Agostinho da Silva, filósofo e ensaísta

Beijos e vulcões



"(...) E andei como um ferido pelas ruas
até perceber que havia encontrado,
amor, meu território de beijos e vulcões."


Pablo Neruda, in Cem Sonetos de Amor, Soneto V, tradução de Albano Martins, editora Campo das Letras

As mãos do futuro



"São raros os homens que se apoderam do futuro com mãos criadoras."

Eugénio de Andrade, poeta

Os donos do mundo



"Os donos do mundo estão a convertê-lo num matadouro e num manicómio. (...) Dizem que a condição humana é assim. Não me convencem. (...) Perdemos a memória da solidariedade."

Eduardo Galeano, escritor, em entrevista à revista Teína, de Valência

Há palavras que são pão...



"Há palavras que atravessam o tempo e são elemento essencial de batalhas pela liberdade. Há palavras que são o pão que dá a força para romper cercos ou encontrar alentos para prosseguir jornadas de resistência. Há palavras companheiras, que furam o bloqueio da solidão. Há palavras que fazem bater mais depressa o coração, como dizia o Almada. Há palavras que preenchem o alfabeto da esperança, em que é preciso acreditar."


Fernando Paulouro das Neves, in Jornal do Fundão

À mesa com o pensamento

"Todas as coisas são mesa para os pensamentos."


Herberto Hélder, poeta

O coração do sol



"Convencera-se que o seu coração adquirira o tamanho do sol e lhe iluminava todo o corpo, nele deixando uma agradável sensação de calor."

Virginia Wolf, escritora, in "A Viagem"

És todo o trigo!


"(...) tu és a argila escura que conheço:
nas tuas ancas toco de novo todo o trigo (...)"

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor", Soneto V, tradução de Albano Martins, editora Campo das Letras, 2004

Já iluminaste alguém?



"A nossa vida deve servir para alguma coisa, ou melhor, para alguém. Ajudar alguém, animar alguém. Amar alguém, iluminar alguém."

Jaime dos Santos Afonso, professor da Escola EB 2/3 da Junqueira

No fim de contas...



"No fim de contas, por muito que nos doa e demoremos a morrer, no fim morremos sempre. E quem morre, descansa."

in "O Capitão Alatriste", de Arturo Pérez Reverte, edições Asa, 2006

Por que caminhos...



" (...) Por que caminhos e como chegaste à minha alma?

Porque precipitaste o teu fogo doloroso,
subitamente, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que fumo te indicaram a minha morada? (...)"

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor", Soneto III, tradução de Albano Martins, editora Campo das Letras, 2004

O voo da Paz



Porto, Praça D. João I, dia 17 de Março de 2007, 17h30m.
A Paz voou no coração de todos quantos disseram presente na mobilização e de outros tantos que, em pensamento, também lá estiveram. O activismo contra a guerra constrói-se desta forma - com todas as ramificações.
Uma dúvida, no entanto, abre o postigo: onde será que a Paz pousou?

http://www.flickr.com/photos/manuelafonso/sets/72157600043706808/

Planície



Por mais encruzilhadas
que se nos deparem
ou subtis desvios
que nos afastem
do húmus da terra
há sempre uma papoila
no ventre da planície

que ilumina os nossos
passos


V. Solteiro, 04.04.07



* Os passos deste poema - não é o primeiro, não será o último, espero -, começaram aqui http://vivaosol.blogspot.com/ , mais concretamente, na postagem de dia 30.03.07, e na beleza indizível do poema de Sophia de Mello Breyner; acrescente-se a música, a ambiência, as imagens e as palavras içadas ao vento e ao sol por Maat, e eis como a felicidade ou o que quer que seja esta chama que nos aquece e se transfigura em palavras, pode ser alcançada em actos tão simples e em coisas aparentemente tão pequeninas.

Entre cirrus e cumulus...



(ao mar de nuvens)

As imagens
que as palavras
des-constroem
erguem-se
frágeis
numa ode
aos alicerces
das nuvens

Os cirrus
e cumulus
projectam-se
num vazio
pleno
de firmamentos

Vazio que se abre
lânguido
por cima dos ombros
serpenteantes
da falésia

O tempo
é o espaço
que resta
entre duas mãos
entrelaçadas

Deitados na areia
ou emudecendo sob o estorno

amadurecem os amantes

V. Solteiro
03.04.07