As Mós e os nós II



(A meus avós)


Ouve-se já
ao longe
a desconcertante
ladaínha
dos chocalhos
ecoando
ancestrais
refrões
pelo dorso
do vale

Por detrás
dos montes
ruminando
ladeiras
de íngremes
contornos
cabras e ovelhas
seguem o pastor
na sua demanda
de aconchego

Da varanda
prescruto
com o olhar
os últimos raios
do poente
esmagarem-se
contra
as lajes
de xisto

Nas hortas
formigas
humanas
afadigam-se
em derramar
o precioso
líquido
por sementeiras
que hão-de
germinar
futuros

(Um perfume a terra
sedenta evola-se no ar e funde-se
com o cheiro da flor da laranjeira!)

Tímida
a noite
cai
sobre o
minúsculo
povoado
construindo
novas
métaforas
e lendas
a uma aldeia
enamorada
por adamastores
vestidos
de urze
e de tojo

Na fonte
perfilam-se já -
quais imberbes
mancebos! -
os cântaros
com a sua farda
azul uniformizada

Içados à cabeça
como mastros
de um navio
cada um tem
o seu porto
e o seu ritmo
a sua amurada
e a sua melodia

No terreiro
geografia
de todos
os reencontros
e despedidas
chão fremente
de risos
e de lágrimas
alfobre
de alegrias
e tristezas
os homens
dão largas
à conversa

Por todo
o povoado
se rumoreja -
nas toscas
e desalinhadas
pedras da calçada
nos alpendres
das casas -
até o próprio luar
enrubesce
quando escuta
certos magistérios!

Rendilha-se
o diálogo
com a ventura
de quem desfolha
um álbum de
fotografias
amarelecidas
pelo sol impiedoso

Nas Mós
aldeia de nós
laços afectos
e múltiplos dialectos
a argila que molda
as rugas do tempo
é a mesma com que
se edifica a morada
da candura

Ainda hoje
sinto o afago
dessas raízes
profundas
e indecifráveis
com que o majestoso
e omnipresente olmo
me prendeu à terra


É quando
o vento norte
me sussurra
enledos na copa
dos cabelos
que ouço a voz
de meus avós
crepitar
ao meu ouvido
- é nesse preciso instante
que tudo faz sentido!


V. Solteiro, 26.06.07
Imagem retirada de: http://mosdodouro.com.sapo.pt/

2 comentários:

"carlos pedro" disse...

Deixe-me que o cumprimente com admiração, e ao mesmo tempo o felicite pelo bom gosto.
As Mós merecem que gostemos dela.

lupussignatus disse...

Olá Carlos Pedro!

Seja bem vindo a esta humilde casa...

As raízes dos afectos nunca desaparecem e jamais se cortam; fortalecem-se a cada dia, com o húmus da memória.

Obrigado pelas simpáticas palavras e parabéns pelo excelente blog (que vou colocar nos favoritos).

Abraço com M(n)ós,

Vítor