Chão de água
O vento aquieta as velas
ao pensamento
desdobra
os nós do seu cordame
Sabem-no os juncos
quando tremem à boca do canal
sentindo o roçagar das fendas dos barcos
V. Solteiro
Fruição
Da janela do céu abre-se
um solo que nunca viu o arado
uma oliveira que nunca sentiu
a fruição do fruto
Aquelas nuvens
com olhos de azeitona
Porque me miram assim?
Ainda é cedo para saber
A noite está madura
traz um diospiro nas mãos
V. Solteiro
Escuro
Abre os olhos, escuro!
Vê quanta claridade se esconde no maduro
núcleo da onda. Íntegro, queimas o sal em cada
inalação da matéria.
Sabes, o crânio é um frágil vaso de madrugada
que se sustém no parapeito das intempéries.
Inclina-o e mergulha-o no coral do recomeço.
A sede pelo fruto ganhará assim um outro apreço.
V. Solteiro
Vago
Colher o recolhimento
Formigas afadigadas
na recolecção do inútil
assim vamos andando
desandando do centro
do lugar da liberdade
Carregamos nas costas
o peso do supérfluo
e a medida da necessidade
desmedida
No fim quem nos acolhe
é a mesma amiga
que nos colhe
V. Solteiro
Fitoplâncton
Recolheu o silêncio da concha das mãos e absorveu-o
A alterosa pulsação do mar impregnava de gotículas as suas pestanas
V. Solteiro
Um poderoso frémito colava-se-lhe ao queixo
Havia horas que o dia falava ao ouvido
Ninguém melhor do que ele conhecia o alcance daquelas correntes
moinhos subterrâneos a triturar o centeio da esperança
A sua tez era já a luzidia escama de um peixe
V. Solteiro
Ceifa
De cada vez que o colocam à míngua
ele cresce
feito uma sequóia
De cada vez que a lâmina decepa
a base do seu tronco
ele renasce
raiz indestrutível
Ceifa o desaire
como quem colhe o trigo
V. Solteiro
V. Solteiro
Área de Paisagem Desprotegida
Para o Mondego
Colocar uma pedra sobre o passado
é obra apenas ao alcance
de animais de grande porte
O território do olvido
- sabem os nativos -
é área de reserva integral
onde a caça à bruma
é de todo interdita
Quando sombras furtivas
desenlaçam a flor de arame
gera-se um tumulto inaudível
que quebra o mármore da laje
mais robusta
A lápide recorda-nos:
área de paisagem desprotegida.
V. Solteiro
Águas furtadas
disse:
deixem-me ser claro
deixem-me ser
deixem-me
são turvas as águas
que me rodeiam
da garganta da nascente
brotam bocas
de labaredas
V. Solteiro
deixem-me ser claro
deixem-me ser
deixem-me
são turvas as águas
que me rodeiam
da garganta da nascente
brotam bocas
de labaredas
V. Solteiro
Do deserto
O pó bebe do deserto
uma ínfima parcela de luz
Guarda as partículas que sobejam
no leito da duna
Assim o nómada no subterrâneo rio
do alaúde
V. Solteiro
Um tiro no escuro
Eleva a dor ao seu ângulo
raso Funde no vaso
o bronze mais puro
Rói a membrana do escuro
Ruminante é o vesgo
quotidiano que verga
Enxerga
A raiz da luz
é ave cravejada
de chumbo
V. Solteiro
quotidiano que verga
Enxerga
A raiz da luz
é ave cravejada
de chumbo
V. Solteiro
Sus.tento
Uma faca de luz
tomba
sobre a mesa do mar
A face lívida do seu gume
talha os frutos do ar
com um misericordioso golpe
Recolectora de pó e estrelas
a sua reluzente lâmina
navega pela aresta da escuridão
sem a mais leve relutância
sem a mais leve relutância
Ávida
a rumorosa boca da maré
agradece a oferenda
com um banquete
de espuma e maresia
V. Solteiro
Pela berma da tarde...
Um homem quebra o espelho do medo.
Com a determinação do quartzo, ele move
uma cadeira de rodas pelo pulso do futuro.
Quebrado, mas não rendido, o seu corpo
é um turbilhão sem centro nem periferia.
Surdo à lava do ruído, cego ao mármore do olhar,
o homem é um géiser imparável.
Dentro de si vagas explodem contra o paredão do desamparo.
Prende-o o cinto do pensamento, o movimento erecto e centrípeto da combustão.
Plena. Pura.
Terra, vísceras e fogo, tudo se interpenetra com
o gélido sangue da realidade.
Alheia aos estilhaços, uma mulher, mãos enlaçadas
com a tristeza do asfalto.
Pela berma da tarde, os dois, rostos fechados,
Terra, vísceras e fogo, tudo se interpenetra com
o gélido sangue da realidade.
Alheia aos estilhaços, uma mulher, mãos enlaçadas
com a tristeza do asfalto.
Pela berma da tarde, os dois, rostos fechados,
são uma máquina ofegante devorando o declive do infortúnio.
V.Solteiro
V.Solteiro
Migração
para a Marisa
Dentro da cabeça das andorinhas fervilham nuvens de ideias. Quando alguma assenta na navalha da folha, logo os minúsculos membros se retesam, prontos para rasgar o infinito.
V. Solteiro
Semente
Do solo que te acolhe na alvorada
guarda o fruto bravio
que cresce no sopé da vereda
Trinca-o com gosto
antes de recolheres o húmus
que fertiliza
a lânguida língua do tempo
Recorda
No tronco
ou num ombro
brota
a semente do sol
Vítor Calé Solteiro
Tempestade
Ébria de sono e sal
a gaivota despenha-se
do cume da vaga
e vem beijar a duna
outrora intacta
A tempestade que com frémito
assolou a orla nos derradeiros dias
transfigurou as marés
num corcel de indomáveis garranos
As suas poderosas patas
infligiram
nos seus flancos
inenarráveis feridas
disseminando pela pele
os detritos da desumanidade
Vítor Calé Solteiro
Vítor Calé Solteiro
Orfendida
Uma criança brinca com as dobras da noite.
Mãos que falam
ela borda
o manto da neve e o pranto da névoa
Nada a desata.
Nem mesmo a torre de lama
que ergue e destrói
com gestos de dobadoira.
Vítor Calé Solteiro
Mergulho
Só a poesia nos salva
desta corrosiva hipocrisia
que impregna
os livros de cabotagem
V. Solteiro
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