Chão de água


O vento aquieta as velas 

ao pensamento  

desdobra 

os nós do seu cordame


Sabem-no os juncos 

quando tremem à boca do canal

sentindo o roçagar das fendas dos barcos 


 

V. Solteiro

Fruição


Da janela do céu abre-se

um solo que nunca viu o arado

uma oliveira que nunca sentiu 

a fruição do fruto


Aquelas nuvens 

com olhos de azeitona

Porque me miram assim?


Ainda é cedo para saber

A noite está madura 

traz um diospiro nas mãos


 

V. Solteiro


Escuro


Abre os olhos, escuro!


Vê quanta claridade se esconde no maduro

núcleo da onda. Íntegro, queimas o sal em cada

inalação da matéria.


Sabes, o crânio é um frágil vaso de madrugada

que se sustém no parapeito das intempéries.

Inclina-o e mergulha-o no coral do recomeço. 


A sede pelo fruto ganhará assim um outro apreço.


V. Solteiro