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A paleta do silêncio



De Santa Bárbara
vê-se o sol
a escorregar
pelo fio
do horizonte
e cair
qual gota
de orvalho
nas margens
do silêncio

É um silêncio
raro e perfeito
povoado
de vazio
e de luz
aquele
que se sente
aqui
no cume
da serra

Fugidias
sombras
correm
pelas giestas
e carrascos
como cães
esfaimados
em busca
de uma furtiva
perdiz

Quando as cores
do poente
se derramam
pelo leito
refulgente
do Douro
o rio de xisto
que veste
as terras de
tons ocres
embebeda-me
os sentidos
e inebria-me
de prazer

É com essa paleta
e nessas águas
subterrâneas
que crio novas simetrias



V. Solteiro, Mós do Douro, 2004

Imagem retirada daqui: http://fozcoajer.planetaclix.pt/fotos_pano.htm

As Mós e os nós II



(A meus avós)


Ouve-se já
ao longe
a desconcertante
ladaínha
dos chocalhos
ecoando
ancestrais
refrões
pelo dorso
do vale

Por detrás
dos montes
ruminando
ladeiras
de íngremes
contornos
cabras e ovelhas
seguem o pastor
na sua demanda
de aconchego

Da varanda
prescruto
com o olhar
os últimos raios
do poente
esmagarem-se
contra
as lajes
de xisto

Nas hortas
formigas
humanas
afadigam-se
em derramar
o precioso
líquido
por sementeiras
que hão-de
germinar
futuros

(Um perfume a terra
sedenta evola-se no ar e funde-se
com o cheiro da flor da laranjeira!)

Tímida
a noite
cai
sobre o
minúsculo
povoado
construindo
novas
métaforas
e lendas
a uma aldeia
enamorada
por adamastores
vestidos
de urze
e de tojo

Na fonte
perfilam-se já -
quais imberbes
mancebos! -
os cântaros
com a sua farda
azul uniformizada

Içados à cabeça
como mastros
de um navio
cada um tem
o seu porto
e o seu ritmo
a sua amurada
e a sua melodia

No terreiro
geografia
de todos
os reencontros
e despedidas
chão fremente
de risos
e de lágrimas
alfobre
de alegrias
e tristezas
os homens
dão largas
à conversa

Por todo
o povoado
se rumoreja -
nas toscas
e desalinhadas
pedras da calçada
nos alpendres
das casas -
até o próprio luar
enrubesce
quando escuta
certos magistérios!

Rendilha-se
o diálogo
com a ventura
de quem desfolha
um álbum de
fotografias
amarelecidas
pelo sol impiedoso

Nas Mós
aldeia de nós
laços afectos
e múltiplos dialectos
a argila que molda
as rugas do tempo
é a mesma com que
se edifica a morada
da candura

Ainda hoje
sinto o afago
dessas raízes
profundas
e indecifráveis
com que o majestoso
e omnipresente olmo
me prendeu à terra


É quando
o vento norte
me sussurra
enledos na copa
dos cabelos
que ouço a voz
de meus avós
crepitar
ao meu ouvido
- é nesse preciso instante
que tudo faz sentido!


V. Solteiro, 26.06.07
Imagem retirada de: http://mosdodouro.com.sapo.pt/

As Mós e os nós I



Inefável
andarilha
de noites
sonâmbulas
de esperança
e de trilhos
sinuosos
povoados
por giestas
e carrascos
a memória
do tempo
em que o canto
das cigarras
era um hino
ao ouro do trigo
veio pousar
qual cotovia
exausta
nas pupilas
incendiadas
pela ternura

V. Solteiro, 26.06.07

Imagem retirada daqui: http://www.cm-fozcoa.pt/