A casa...




Pungente
é a morada
que ofereces
com as mãos
coroadas
de flores


Ei-la
alva
e pura
janela
aberta
sobre
os astros
e a cal

a casa
que te viu
nascer


V. Solteiro, 30.11.07

"Flowery window", fotografia de Cátia Granadeiro, in http://www.photoforum.ru/

Papoila



Sobe
o sangue
à face
da papoila
quando
se embala
e enamora
pelo vento
numa ondulação
plana


O seu rubor
tinge a seara
de cores
rubras
e maduras


V. Solteiro, 29.11.07



Este poemeto floriu a partir da visualização do post do blog de Mïr - http://aluzdovoo.blogspot.com/
- intitulado "Arte em Imagem (VIII)".

Fotografia retirada daqui: http://alfarrabio.di.uminho.pt/

O cheiro das dálias...



Artífices
do magma
da noite
escavamos
os túneis
do efémero
com a ânsia
do usurpador

Argila
debruada
de bruma
e alento
cavamos
as galerias
da sombra
com a argúcia
do especulador

Fugaz
relâmpago
exploramos
o ventre
da esfera
olvidando
aquilo
que nos une

- o cheiro
das dálias


V. Solteiro, 28.11.07
Fotografia retirada daqui: http://www.jardimdeflores.com.br/

O clamor das águas...



"A água entra no corpo e varre tudo,
limpa tudo,
atravessa-nos e torna-nos água.


onde está?
por onde entrou?
onde vive?
de que é feita?

não importa...desde que a água se respire do cheiro...
desde que as margens não a parem,
desde que os mantos não a cubram...
será água, límpida, porque corre dentro de nós, e desaparece no rio dos olhos, quando a pele
não tem paredes para segurar."



Poema de Dalaila - http://farolnoventodonorte.blogspot.com/ - publicado na caixa de comentários do post "Líquida menina".


Fotografia de Vítor Dias, intitulada "Water", in http://www.photoforum.ru/


À espera do que acontece...



"Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia


chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a


é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece"



"Rifão Quotidiano", poema de Mário Henrique Leiria

Fotografia retirada daqui: havidaemmarkl.blogs.sapo.pt/

Mário Viegas:o fruto da poesia...

O presente é uma força do futuro...



"O presente só se goza plenamente quando contém nele a força do futuro."

Isabel Stilwell, jornalista e escritora
"The past and the present of a cord", fotografia de Anna Kalinkina, in http://www.photoforum.ru/

Pelo sonho é que vamos...


Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.


"Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e do que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos."



"O Sonho", poema de Sebastião da Gama, in "Pelo sonho é que vamos..."

Poema gentilmente enviado por Maria João

Fotografia de Dmitry Zimarev, intitulada "Dream", disponível em http://ww.photoforum.ru/

O mar do inconsciente... (onda II)


"Imenso é o mar do inconsciente
sinuosa a maré da consciência"

Pensamento de Mïr - http://aluzdovoo.blogspot.com - ao post "O mar do inconsciente"


"Series of 'A Sea Storm' - Colors Made by the Sea", fotografia de Aquinaldo Calheiros Vera-Cruz, in http://www.photoforum.ru/


Líquida menina




A água caminha!
A água fala!
A água ri!
A água chora!

A água
é uma dançarina
esquiva:
ninguém sabe
onde mora!

Rio
lago
mar
ou charco:
toda a gota
tem a sua
identidade!

Uma coisa
a água jamais
fará:parar.

Mesmo presa
e amordaçada
em fundas
barragens
a água não
estanca
as suas
margens:

"O meu destino
é borbulhar
por fragas
e penedos
até desembocar
na boca do mar!

O meu desatino
é evaporar-me
nas ondas do ar
- e nunca mais
poder rodopiar!"


A água
que brota
do granito
da mina
é sábia
e pueril:
é líquida
menina!
Jorra luz
na face das
nuvens.



V. Solteiro, 23.11.07


"Líquida Menina" brotou do granito da serra depois de ver e ouvir o post de Hanah dedicado à água- http://www.alfazenite.blogspot.com/ - com música de Devendra Banhart
"Water Garden", fotografia de Ngeow Voon Chin, in http://www.photoforum.ru/

Noir Désir:o vento leva-nos no pó dos dias...

Bebo o reflexo da lua...



"Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea."


"Bebo Sozinho ao Luar", obra de Li Po, poeta chinês


Poema gentilmente enviado por Maat - http://vivaosol.blogspot.com/

"Moon Shadow", fotografia de Greg Summers, in http://www.photoforum.ru/


O mar do inconsciente...


"Qualquer psicólogo o sabe. Fracassamos ou triunfamos, ficamos pelo caminho ou vamos longe, às vezes por um pequeno nada, perdido no mar do inconsciente."

António Quadros, escritor


http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_quadros

"Black Blue Sea", fotografia de big, in http://www.photoforum.ru/

Oswaldo Montenegro:música inundada de sentimentos...

O instante transborda eternidades...

"Ele não fazia cerimónia no viver. O sempre lhe era pouco e tudo insuficiente. (...) O pouco se fazia tudo e o instante transbordava eternidades."

Mia Couto, escritor, biólogo e poeta, in "Estórias Abensonhadas"
"Passing Moment", fotografia de Peter Lehmann Hansen, disponível aqui: http://www.photoforum.ru/


O afecto é uma flor que urge proteger...



"Viver é um treino e uma aprendizagem...É um exercício de meter no possível os nossos sonhos, os nossos desejos e as nossas ambições mas sem abdicar deles. O que é possível, sempre, é o afecto que damos aos outros."

António Alçada Baptista, escritor, in "O Riso de Deus"


Fotografia de Judith Tomaz, sem título, disponível em http://www.photoforum.ru/


Manuel Freire: os minerais do sonho...

Os sonhadores são perigosos!



"Todos os homens sonham, mas não da mesma forma. Os que sonham de noite, nos recessos poeirentos das suas mentes, acordam de manhã para verem que tudo, afinal, não passava de vaidade. Mas os que sonham acordados, esses são homens perigosos, pois realizam os seus sonhos de olhos abertos, tornando-os possíveis."


T.E. Lawrence, in "Sete Pilares da Sabedoria"


Texto gentilmente enviado por Hanah - http://alfazenite.blogspot.com/

Fotografia de Graça Loureiro, intitulada "Dream [a Little Dream] of Me", visualizável aqui: http://www.photoforum.ru/

São os sonhos que seguram o mundo...

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

"São os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e o único céu."

José Saramago

"Dream", fotografia de m09kari, in http://www.photobucket.com/



Falésia de luz...


Fotografia de V. Solteiro,
Praia da Galé, Algarve, Setembro 2007
(Aceitam-se legendas!)


Como se desconhecesse
meu destino
~~~~~~~~~~
O mar é o meu destino.
o que ele escrever
eu assino.
~~~~~~~~~~
Trago na pele o sal de teus beijos.
Ana
~~~~~~~~~~
A dureza da pedra
ou a leveza do cimo?
~~~~~~~~~~
A Rocha que banha o mar.
~~~~~~~~~~

Escrever é sub-verter os dias...

"Escrever é lutar, no sentido de subverter, de transformar."

Fernando Dacosta, jornalista e escritor

Fotografia de Sílvia Antunes retirada daqui: www.1000imagens.com/

A descoberta de um novo mundo...


"Há pessoas que nos ajudam a dar o nosso melhor, que nos levam a descobrir coisas em nós de que não temos consciência."

Tracy Chapman, cantora e compositora


Fotografia de Peter M., tirada na Serra do Marão, Carvalho de Rei, Amarante, in www.olhares.com/

J.P. Simões:música com asas...

A voz do Outono ...




"Tinha-te a ti/tinha-te a ti/ e tinha Paz". Foi assim que J. P. Simões, com uma voz lânguida e melancólica, a arrastar-se num palco carregado de fumo e sombras, iniciou aquela que é uma das mais belas e ternurentas músicas que jamais ouvi. "Micamo", assim se chama a "oração", é uma composição que o jovem autor e compositor nascido em Coimbra teceu a pensar na avó...


Irradiando uma ternura e uma suavidade que só a seda pura pode transmitir, aquelas doces e tristes palavras, acompanhadas pelo dedilhar preciso e delicado de Miguel Nogueira na viola acústica, tiveram o condão de inundar-me de uma serenidade que julgara impossível num dia que foi um fósforo...


Baseando a sua actuação nas faixas do seu primeiro álbum a solo, intitulado "1970" (boa colheita, sem dúvida!), J.P. Simões, um dos mentores de projectos musicais como os Belle Chase Hotel e Quinteto Tati, não deixou também de trilhar outros caminhos e sons - ou não fosse ele um viandante incorrigível! Deambulou por temas da "Ópera do Falhado" (cujo libreto escreveu, partilhando a invenção musical com Sérgio Costa), fez uma incursão breve mas significativa pelo samba e bossa nova (Cartola, Tom Jobim e Chico Buarque) e ainda teve arte e engenho para degustar prazenteiramente - e com comentários irónicos - um dos temas mais emblemáticos da música dita de intervenção ("Inquietação", de José Mário Branco).


Dito em resumo, que a emoção não é boa conselheira: quer pela riqueza, e profundidade da sua escrita, quer pelo cuidado e rigor colocado na produção, composição e arranjos musicais, quer pela simplicidade, honestidade e humor da sua postura perante o público, J.P. Simões revelou sábado transacto, no pequeno auditório do Cine-Teatro de Estarreja, que "1970" é néctar a ter em conta em futuras degustações e que a sua viagem pela terra acre dos sentimentos só se refaz com uma música assim: repleta de significado e de significância. Em cada corda. Em cada acorde. Numa incessante procura...


Um concerto que ficará gravado na minha memória...como um bom vinho!

Mais informação sobre o cantor/compositor: http://www.jpsimoes.com/


V. Solteiro, 13.11.07

Os amantes-navegantes...



Trémulas
velas
de navio
à deriva
no mar revolto
os amantes
navegantes
evolam-se
no ar
e flutuam
no infinito
afugentando
as sombras
dos dias
pardacentos

O seu dorso
de tão refulgente
é nascente de luz
na penugem dos
pássaros


O seu porte
de tão altivo
é cume
de montanha
inexpugnável


O seu sopro
de tão cálido
insufla
na alba
uma respiração
vital


Insígnes
estandartes
de helénicos
deuses
gestualizam
os signos
e os sinais


Transparentes
emergem
do mármore
das estátuas
como intrépidas
ondas
insaciáveis
de areal


V. Solteiro, 10.11.07

"Lovers", fotografia de Rasa Kulyte, in http://www.photoforum.ru/




Enquanto...

"Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os osssos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA"



"Enquanto", poema de António Gedeão, Lisboa, 1906-1997
"Two generations of poverty", de Ainars Brencis, in http://www.photoforum.ru/

Ó glória de mandar!


"ouvi agora senhores
uma história maldita
por entre vários favores]
e os esforços da Dita!
está aberto o processo!]
decorre agora a audiência!]
é o governo confesso
na Tribo da paciência.
e sentam-se todos à mesa]
tossem todos com gripe]
e a malta sempre mais tesa
serve em s. bento de vip.
saltam então os foguetes
e os martelos no chão!...
e o governo com banquetes
dá-nos a extrema-unção!...

voltámos à renascença.
são os sumos-sacerdotes.
e os generais de nascença
caiem todos dos escadotes!
ó glória de mandar
que esta vaidade atiça!
vão as rádios fechar
por uma santa justiça!...

e lá vem a Nau-Catrineta
que tem muito que contar...
a malta toda sem cheta
e a Outra sempre a roubar...

eh que manada d' archotes
que leva a malta nos cornos
com os sumo-sacerdotes
a recheá-los com pornos!...

mas...no frenesim dos saiotes
com suas damas felinas
caiem todos dos escadotes
deitam na cama as meninas...
e os rechonchudos com asas
assam perús nos salões
deixam vazias as casas
deixam fugir os ladrões!...

ó glória de mandar
que esta vaidade atiça!...
vão as ditas fechar
por uma santa-justiça?!"


"Na tribo da paciência", poema de Maria Azenha, in "PIM - Poemas de Intervenção e Manicómio", Universitária Editora, 2000
Cartoon retirado daqui: http://danielravena.blogspot.com/

Não ouve, não fala, não participa...


"O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguer, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado
e o pior de todos os bandidos:
o político vigarista,
pelintra, corrupto e lacaio
das empresas nacionais e multinacionais."


"O analfabeto político", poema de Bertold Brecht

(poema gentilmente enviado por Maat)
Ilustração retirada daqui: http://jc-garcia.zip.net/

Este é o tempo!


Este é o tempo
das hienas
tra-vestidas
de açucenas!

Este é o tempo
de garras
desfiadas
à descarada!

Este é o tempo
de dourados
madrigais
- luzidios
como espadas!

Este é o tempo!

Este é o tempo
de ascetas
de finíssima
flor!

Este é o tempo
de profetas
de financeiríssimo
louvor!

Este é o tempo!

Este é o tempo
de homens
decisivos
e incisivos!

Este é o tempo
de homens
que exibem
os dentes
do siso!

Este é o tempo!

Este é o tempo
em que a usura
e a cicuta
campeiam!

Este é o tempo
em que a Humanidade
é colocada
de permeio!

Este é o tempo!

Este é o tempo
da malta super
hiper ultra
capacitada!

Este é o tempo
em que os marqueses
pululam
defronte da fachada!

Este é o tempo!

Este é o tempo
da dignidade
truncada!


V. Solteiro, 06.11.07
Fotografia retirada de www.midiaindependente.org/

O que se joga em Pequim 2008...


Actualmente, a China é o maior executor do mundo. Ali se levam a cabo 65% das execuções perpetradas em todo o planeta, mediante um disparo, habitualmente na nuca, e, com frequência crescente, através de injecção letal (...). Demonstra às autoridades chinesas que os Direitos Humanos não são um jogo...
Fotografia retirada do site da Amnistia Internacional

A Sétima Porta

"A Sétima Porta", o novo livro de Richard Zimler, escritor norte-americano naturalizado português, será apresentado no próximo dia 9 de Novembro, sexta-feira, pelas 21h45, na Entrelinhas Livraria, em São João da Madeira. O autor de romances históricos como "O Último Cabalista de Lisboa" ou "Meia-Noite ou o Princípio do Mundo" estará presente.

Mais informação em:
http://www.zimler.com/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_zimler

Contacto:
Entrelinhas Livraria
R. João de Deus, 167
3700-152 S. João da Madeira
www.entrelinhas-livraria.com

Fotografia de Richard Zimler recebida na newsletter da Entrelinhas Livraria

Erguer a claridade...

"É tão grande a vida. Há momentos pareceu-me que o que tinha feito estava previsto havia dez mil anos, depois achei que o mundo se abria em duas partes, que tudo se tornava de uma cor mais pura e que nós, homens, não éramos infelizes."

Roberto Artl, in "El Juguete rabioso", escritor argentino

"All colours of the sky", fotografia de Natalia Serebryakova, in http://www.photoforum.ru/

Manu Chao: correr contra o destino...

A ferida do amor



"A vida coloca o dedal no dedo onde o amor já fez a ferida."


Mia Couto, in "Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos", Editorial Caminho, 2001
Imagem retirada daqui: davidprn.spaces.live.com/

Os rostos da Humanidade...

"Numa das situações em que 20% da humanidade possui 80% dos recursos, temos que nos empenhar todos num objectivo: partilhar. Partilhar não é dar o que nos sobra. Partilhar significa dar parte do que temos. Partilhar é o fundamento do desenvolvimento e da cultura da paz."

Fernando Savater, escritor e filósofo

http://es.wikipedia.org/wiki/Fernando_Savater

Fotografia retirada daqui: http://www.ambienteemfoco.com.br/

Elisabeth Fraser: voz astral

As Horas


Eis-me
aqui
seixo
côncavo
arrastado
pela torrente
dos rios
órfãos


Eis-me
aqui
granito
pontilhado
no palácio
dos sem-
abrigo

Eis-me
aqui
esteio
de videira
sem fruto
nem enxó

Eis-me
aqui
fíbula
pontiaguada
lascada
com suor
cru

Eis-me
aqui
coluna
invertebrada
do edifício
estelar

Eis-me
aqui
fragmento
subtil
de múltiplas
formas
e conteúdos

Eis-me
aqui
papiro
enrugado
pelas dobras
do tempo

Relógio
de ponteiros
ainda
fumegantes



V. Solteiro, 01.11.07
Fotografia de Natalia Bryksina, intitulada "Hours", in http://www.photoforum.ru/

Os cantos do Zeca

Associação José Afonso
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2900-340 Setúbal
tel (00351) 265. 185 580
fax 265. 185 581
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Lá fora faz sol. Eu me visto de cinzas...



"Lá fora faz sol.
Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.


Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.


Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.


Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas."



Alejandra Pizarnik, poetisa argentina


"Aurora", fotografia de Marcelo Favero dos Santos, in http://www.photoforum.ru/

(poema gentilmente enviado por Maat)