Do deserto de outras águas


O pó bebe do deserto
uma ínfima parcela de luz.
Guarda as partículas que sobejam
no rumoroso leito da duna.
Assim o nómada no subterrâneo rio
do alaúde.

Vítor Calé Solteiro

Um tiro no escuro


Eleva a dor ao seu ângulo
raso Funde no vaso 
o bronze mais puro
Rói a membrana do escuro
Ruminante é o vesgo 
quotidiano que verga 

Enxerga 

A raiz da luz
é ave cravejada 
de chumbo

Vítor Calé Solteiro

Sus.tento

Uma faca de luz
tomba
sobre a mesa do mar

  A face lívida do seu gume 
talha os frutos do ar
com um misericordioso golpe

Recolectora de pó e estrelas
a sua reluzente lâmina
navega pela aresta da escuridão
sem a mais leve relutância

Ávida 

 a rumorosa boca da maré
agradece a oferenda
com um banquete
de espuma e maresia

Vítor Calé Solteiro