Pela berma da tarde...


Um homem quebra o espelho do medo.
Com a determinação do quartzo, ele move
uma cadeira de rodas pelo pulso do futuro.
Quebrado, mas não rendido, o seu corpo
é um turbilhão sem centro nem periferia.
Surdo á lava do ruído, cego ao mármore do olhar,
o homem é um géiser imparável.
Dentro de si vagas explodem contra o paredão do desamparo. 
Prende-o o cinto do pensamento, o movimento erecto e centrípeto da combustão. Plena. Pura. 
Terra, vísceras e fogo, tudo se interpenetra com
o gélido sangue da realidade.
Alheia aos estilhaços, uma mulher, mãos enlaçadas
com a tristeza do asfalto.
Pela berma da tarde, os dois, rostos fechados, são uma máquina ofegante devorando o declive do infortúnio.

Vítor Calé Solteiro

Migração



para a Marisa

Dentro da cabeça das andorinhas fervilham nuvens de ideias.
Quando alguma assenta na navalha da folha, logo os minúsculos membros se retesam, prontos para rasgar o infinito.

Vítor Calé Solteiro


Semente


Do solo que te acolhe na alvorada
guarda o fruto bravio
que cresce no sopé da vereda

Trinca-o com gosto 
antes de recolheres o húmus
que fertiliza
a lânguida língua do tempo

Recorda

No tronco
ou num ombro
brota
a semente do sol

Vítor Calé Solteiro





Tempestade

Ébria de sono e sal
a gaivota despenha-se
do cume da vaga
e vem beijar a duna
outrora intacta

A tempestade que com frémito
assolou a orla nos derradeiros dias
transfigurou as marés
num corcel de indomáveis garranos

As suas poderosas patas
infligiram 
nos seus flancos
inenarráveis feridas
disseminando pela pele
os detritos da desumanidade


Vítor Calé Solteiro