Ramificações...



"Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra a carne e o tempo."



"O Poema/I", de Herberto Helder, Funchal, 1930

"Blood system of desert", fotografia de Sergey Militsky, in http://www.photoforum.ru/

6 comentários:

maat disse...

um dos meus eleitos...coroa o tempo...


***maat

Meg disse...

O poeta do mistério, de leitura "aspera" e "lenta".
Denso e de certo modo "pesado", que tens poemas lindíssimos em que palavra tem um lugar, inequivocamente, muito importante.
Apesar disso, é um dos meus preferidos, que já publiquei e voltarei a fazê-lo em breve

Ramon Alcântara disse...

Bonita essa descrição do ato poético pelo Helder. Vinha pensando sobre isso essa semana. A Poesia nos toma em violência, insere nosso dedo no apontador e escravo escreve.

abz

ps: a imagem bem significante!

lupussignatus disse...

Olá Maat!

...e transforma o poema num delicadíssimo reino...

lupussignatus disse...

Olá Meg!

Intrincado. Denso. Intenso.

Torrente de águas bravas...

lupussignatus disse...

Olá Ramon!

Gosto desta poesia que nos revolve as entranhas...

E faz o sangue fervilhar...


Abraço.