A cegueira...



"Olho por olho e o mundo acabará cego"

Tenzin Gyatso, o actual Dalai Lama

"It was war", fotografia de Arkady Golod

As hastes do fogo...


Cegas pelas hastes
do fogo
as pupilas do outono
verbalizam
os acordes do lago


Um violoncelo
ressuscita
na traqueia
do crepúsculo


Vibrante
o som que dele
se ergue
range
as vértebras
dos abetos


Com uma espada
de colcheias
desfere nele
golpes de júbilo
e comoção
Poema e fotografia
de V. Solteiro

Sulcos...


sulco
o coração
da pedra
até ao âmago
do quartzo


no musgo
dos seus flancos
beijo
a face
da deusa
mãe


Poema e fotografia
de V. Solteiro

Des.pro.porção...

Fotografia de V. Solteiro
Serra do Caramulo

Desenraízados...

"Vivemo-nos sob o modo de um desenraízamento histórico singular que só na aparência é negado pela exaltação sentimental em que nos vivemos enquanto portugueses."

Eduardo Lourenço, in "O Labirinto da Saudade"

"Roots", fotografia de Basil G.

A música dos afectos...

"Procuro que a minha vida vá tendo a musicalidade duma constante pergunta e nunca o monolitismo paralisante duma conclusão. Estou absolutamente certo de que nem eu nem ninguém anda com a verdade no bolso, mas estou certo também de que dela irremediavelmente nos aproximamos pelas coisas que descobrimos e pelas resistências que vencemos."

António Alçada Baptista, escritor
"Deep", fotografia de Anna Morozova

Os de-predadores...

" (...) O problema não é a Terra. Ela pode continuar sem nós e continuará. A magna quaesto, a questão maior, é o ser humano voraz e irresponsável que ama mais a morte que a vida, mais o lucro que a cooperação, mais seu bem estar individual que o bem geral de toda a comunidade de vida. Se os responsáveis pelas decisões globais não considerarem a inter-retro-dependência de todas estas questões e não forjarem uma coalizão de forças capaz de equacioná-las aí sim estaremos literalmente perdidos (...)."

Leonardo Boff, Teólogo, numa crónica intitulada "Eles não amam a vida"
http://vivemosjuntos.blogspot.com/

Fotografia sem título de Elisabeth Jordânia

In-dependência de consciência...

"As pessoas não têm consciência de que quando se empenham inteiramente em servir o sistema e fazem de peça útil, comprometem talvez o melhor de si próprias. Não chegam a desfrutar, do cume a que poderiam ter chegado, a dimensão para que foram feitas."

António Alçada Baptista
"Self-Portrait", fotografia de Dmitriy Shestakov, in www.photodom.com/

Uma biblioteca com 4.800 livros e dez pernas...*


Fotografia The New York Times


"(...) Na vila de El Brasil, [na Colômbia profunda], Ingrid Ospina, 18 anos, folheava uma cópia de “Margarita”, o clássico livro de poesia de Rubén Darío, da Nicarágua, quando começou a ler em voz alta.

'Ela foi além de onde estão os céus
e disse à lua, au revoir.
Que travessa ter voado tão longe
sem a permissão de Papai.'


'Isso é tão lindo, professor', disse Ospina. 'Quando você volta?'"


Este é um pequeno excerto da deliciosa e comovente reportagem escrita por Simón Romero* para o The New York Times, intitulada "Uma bibilioteca com 4.800 livros e dez pernas".
O artigo conta a História e as histórias de Luís Soriano, um professor numa remota e pobre localidade da Colômbia que decidiu, contra ventos e montanhas, criar uma biblioteca itinerante em cima de dois burros (Alfa e Beta de seu nome) e levar cultura e educação aos mais desfavorecidos. Resultado:a "Biblioburro" é hoje um projecto com raízes fundas, mobilizador de pequenas-grandes transformações.

Notícia originalmente postada aqui: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL834248-5602,00.html

Bio.divers.idade

Fotografia de V. Solteiro
Parque Natural do Alvão

Amo as árvores que dão pássaros...



"Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros]
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se]
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal]
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos]
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores]
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros]
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração"



"Os pássaros nascem na ponta das árvores", poema de Ruy Belo

"About Birds Love", fotografia de Vadim Onishchenko, in www.photoforum.ru/

Os despojos dos dias...


"Este é o tempo em que a confiança dos homens foi reduzida a lixo."

Amos Oz, escritor

"Doll", fotografia de Alex Gontar, in www.photoforum.ru/

Deixar de Ser...

"As águias de hoje na guerra,
Com os seus golpes traiçoeiros,
Queimam os pastos da terra...
Morrem de fome os cordeiros.


Da guerra os grandes culpados,
Que espalham a dor na terra,
São os menos acusados
Como culpados da guerra.


O oiro, o cobre e a prata,
Que correm p' lo mundo fora,
Servem sempre de arreata
P' ra levar burros à nora.


Que o mundo está mal, dizemos,
E vai de mal a pior;
E, afinal, nada fazemos
P ' ra que ele seja melhor.


Se os homens chegam a ver
Por que razão se consomem,
O homem deixa de ser
O lobo do outro homem."



["As Águias de Hoje na Guerra"], poema de António Aleixo


Promessa traída...


"(...) A 10 de Dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou e proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos e os Estados comprometeram-se a 'promover o progresso social e elevar o nível de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade' e reconheceram que 'os seres humanos só podem libertar-se do medo e da miséria se se criarem condições em que todas as pessoas podem desfrutar dos direitos humanos.'

Sessenta anos depois da adopção da Declaração Universal dos Direitos Humanos, está por cumprir o respeito pelos direitos humanos universais e indivisíveis, que permitam efectivar o direito a um nível de vida digno e o ideal do ser humano livre.


Só em 2007, 1252 pessoas foram executadas em 24 países, documentou-se a prática da tortura e maus tratos em 81 países, em 45 países existem presos e presas de consciência, 854 milhões de pessoas sofrem a tortura da fome em todo o mundo e 1100 milhões não têm acesso a uma habitação digna (...)."


http://www.es.amnesty.org/60-aniversario-de-la-declaracion-universal-de-ddhh/actua-aung-san-suu-kyi/


Tradução livre de parte do Manifesto da Amnistia Internacional que visa assinalar seis décadas sobre a proclamação da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Fotografia da Associated Press de Aung San Suu Kyi, Prémio Nobel da Paz, a mais conhecida dos cerca de 2100 presos políticos de Myanmar, co-fundadora do principal partido da oposição, a Liga Nacional para a Democracia.



África en-clausura-da...


"(...) No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo (...)."

Mia Couto, in "Jornal Savana", 14.11.08, numa crónica intitulada "E se Obama fosse africano?"


"Liberty", fotografia de Ernest Hermann, in www.photoforum.ru/

Neo-esclavagismo



"As pessoas costumam criticar a época do esclavagismo, mas hoje vivemos num mundo de escravatura sofisticada. A escravatura realmente não terminou. Há processos de opressão permanente do ser humano."

José de Guimarães, artista plástico

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_de_guimar%C3%A3es

"Leaving the zone", fotografia de Samuel Sevada in www.photoforum.ru


Esta gente...


"O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente"



"Esta Gente/Essa Gente", poema de Ana Hatherly

"Origenes", fotografia de Olay Murillo, in www.photoforum.ru/

Vogais de água



"há lugares onde chegam vogais de água
lugares novos espantados que assomam à memória
por redes vertiginosas

as suas entoações concentram-se em palavras fabulosas]
palavras luminosas sur-
preendidas pelos castiçais dos ii

um projecto de água

digo:

transportar o sonho de um lado para outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos"



"Vogais de água", poema de Maria Azenha, in "A Chuva nos Espelhos, Editora Alma Azul, Fevereiro de 2008


"The Webs We Weave", fotografia de Michael McCann, in www.photoforum.ru/

Rugas...


Com gestos
de paz
derrubas

as barragens
que o pensamento
meticulosamente
urdiu
***
Com palavras
de ternura
derramas
a madrugada
sobre o peito
das andorinhas
***
(e reconstróis
a pele do mundo)
***
Poema e fotografia
de V. Solteiro

A.corda

acorda
***
rompe
a corda
que te prende
aos nós
da letargia
***
acorda
***
esgana
a indiferença
na prensa
do quotidiano
***
(e pendura-a
no frondoso
pescoço da lua)
***
Poema e fotografia
de V. Solteiro
***
Museu Marítimo de Ílhavo

Acaso o ocaso...

não façam caso
dos que crêem
na magia
do ocaso
***
não façam caso
***
não façam caso
dos que
casualmente
nele vislumbram
algo mais que
ocasional
***
acaso
a casa
mãe
protege-nos
da luminosidade
dos sonhos?
***
Poema e fotografia
de V. Solteiro
Parque Natural do Alvão

Os braços do rio...

ávido
de outro leito
os braços do rio
prescutam na rocha
a foz
do regaço
Foto e poema
de V. Solteiro
Parque Nacional da Peneda-Gerês

Permane-Ser...


"É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer."


"É Urgente o Amor", poema de Eugénio de Andrade

"Tenderness", fotografia de Asya Karo, in http://www.photoforum.ru/

Eli-minar a morte...

"Quando se é mais novo, a ideia de morte é tão longínqua que normalmente pensamos que nunca morremos. É uma das maiores desgraças que pairam sobre o mundo moderno. As pessoas que estão no poder, sobretudo, devem pensar que nunca vão morrer. É por essa razão que são tão estúpidas.
A modernidade elidiu a ideia da morte. É uma omissão incrível. Um dos factores mais negativos do comportamento da nossa sociedade. Deveria ensinar-se aos miúdos, na escola, da maneira mais natural, que temos de morrer. A ideia de sermos mortais ajuda muito a viver. Mas a nossa sociedade escondeu totalmente a ideia da morte. Em compensação, porém, estamos cheios de cadáveres. É só abrir a televisão. Como pode funcionar bem uma sociedade em que há muitos cadáveres mas não há a ideia da morte?"


António Tabucchi, in jornal Público, suplemento Mil Folhas, in 22.04.06, a propósito do seu livro, "Tristano Morre", Editora Dom Quixote


"Death", fotografia de Rodrigo Torres, in www.photoforum.ru/


Mãos que sangram...


"Não se perdeu teu sangue generoso,
Nem padeceste em vão, quem quer que foste,
Plebeu antigo, que amarrado ao poste
Morreste como vil e faccioso.

Desse sangue maldito e ignominioso
Surgiu armada uma invencível hoste...
Paz aos homens e guerra aos deuses! - pôs-te
Em vão sobre um altar o vulgo ocioso...

Do pobre que protesta foste a imagem:
Um povo em ti começa, um homem novo:
De ti data essa trágica linhagem.

Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto,
Lembraremos, herdeiros desse povo,
Que entre nossos avós se conta Cristo."


"A Um Crucifixo", poema de Antero de Quental

"Blood & Love", fotografia de Petri Volanen, in www.photoforum.ru/

A-dentro de nós...

"(...) Nós temos vivido sobretudo em função de uma imagem irrealista. Sempre no nosso horizonte de portugueses se perfilou como solução desesperada para obstáculos inexpugnáveis a fuga para céus mais propícios. Chegou a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá-fora ou lá-longe a solução que como no apólogo célebre está enterrada no nosso exíguo quintal. Não estamos sós no mundo, nunca o estivemos. As nossas possibilidades económicas são modestas, como modesto é o nosso lugar no concerto dos povos. Mas ninguém pode viver por nós a dificuldade e o esforço de uma promoção colectiva do máximo daquilo que adentro dessa modéstia somos capazes. Essa promoção passa por uma conversão cultural de fundo susceptível de nos dotar de um olhar crítico sobre o que somos e fazemos, sem por isso destruir a confiança nas nossas naturais capacidades de criação autonomizada, dialogante como tem sido sempre, mas não sob a forma de uma adaptação mimética."

Eduardo Lourenço, in "O Labirinto da Saudade", Novembro de 1988, Publicações Dom Quixote
"Leaf", fotografia de Peter Scharwz, in www.photoforum.ru/

Oxalá...


"Podem pisar-te como à erva ruim
E dizer que essa terra não é tua,
Podem matar os teus, sacrificar-te,
Pretendendo que o teu reino é o da lua,
Podem forças obscuras conjurar-se
P'ra roubar o que desde sempre te cabia,
Podem queimar-te e arrasar-te
Mas não negar a luz do dia.
Podem erguer um muro de mentira
Para deter os ventos do deserto
Mas eles amam-te e são teus
Sempre voltarão e hão-de ficar perto.
Teus filhos hão-de saber salvar-te,
Terra mártir, altiva e beduína,
E a meiga pomba da paz e da alegria
Pousará, de novo, em ti, ó Palestina."


"Palestina", poema de Adalberto Alves

Este poema foi lido pela primeira vez durante a Exposição Cultural Palestiniana levada a cabo em Beja, em 11 de Julho de 1986.

Ao poeta, ensaísta e tradutor Adalberto Alves foi recentemente atribuído o Prémio Sharjah para a Cultura Árabe, criado pela Unesco.


"Palestina Liberta!", fotografia de Vladimir Melnik, in http://www.photoforum.ru/

O mar chama...

Tacteio
o insondável
abismo
da ternura
no glacial
cume
dos ombros


A sua sinuosa
orografia
lembra
a textura
das algas
flutuando
à deriva
num mar
em chamas
Poema e foto
de V. Solteiro

Os frutos do Outono


do erecto
corpo
do outono
recolho
o fruto
prometido

um
olhar
de
azeitona

um
sorriso
de
uva

sementes
robustas
e promissoras
como lábios




Foto de M. João

Poema de V. Solteiro

Ao(s) pé(s) do mar...

aos pés do marhá um corpo que se liquefaz
em fugazes


anéis de espuma

Poema e fotos
de V. Solteiro

Verde que te quero verde II

"vi-me nascer, crescer, sem ruído
sem galhos que doam como braços
calada
sem palavra para ferir no ventre"
Poema de Maria Costa

Foto de V. Solteiro

Parque Nacional da Peneda-Gerês


Vocábulos amados...

" (...) Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as... Amo tanto as palavras... As inesperadas... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem... Vocábulos amados... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho... Persigo algumas palavras... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda... Tudo está na palavra... Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes... São antiquíssimas e recentíssimas.Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada...Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas...Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes...o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando...Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo...Deixaram-nos as palavras."

Pablo Neruda


Texto gentilmente enviado por Maat - http://opodaescrita.blogspot.com/

"Reading", fotografia de Ioan Ciobotaru, in http://www.photoforum.ru/

À procura...

"Se tivesse que me descrever, diria que sou uma pessoa à procura de palavras e que às vezes as encontra".

Dinis Machado, jornalista e escritor, em entrevista a Clara Ferreira Alves, in jornal "Expresso", 1999





"Hay", fotografia de Vitaly Klitin, in http://www.photoforum.ru/

A liquidez das sombras...

"líquidos dias

do tempo breve e profundo

com as sombras

repartindo

os verdes"

Poema de Maat

http://omaratingenos.blogspot.com/

Foto de V. Solteiro

Parque Nacional da Peneda-Gerês

Num segundo...



"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes


encontramos de nós em poucos meses
o que a vida nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes


ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos


E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos"



"E por Vezes", poema de David Mourão-Ferreira


"Anatomy of the Nature", fotografia de Kristina Buceatchi, in http://www.photoforum.ru/

Verde que te quero verde *

Foto de V. Solteiro
Parque Nacional da Peneda-Gerês
* título do post roubado a um verso de Federico Garcia Lorca


En-cruz-ilha-da


"Quanto mais estradas, menos visitamos os outros."


in "Venenos de Deus, Remédios do Diabo", de Mia Couto, Editorial Caminho, 2008


"Crossroads", fotografia de Olga Dunaeva, in http://www.photoforum.ru/

Translúcida vertigem

"[que em nada baste

que as pa lavras se des tapem

dos seus corações em cio

e mergulhem facílissima mente

no domínio comum das bocas

seta recta a perfurar códigos de espaço

(apont ar >"

Poema de Rosasiventos - http://rosasiventos.blogspot.com/

Foto de V. Solteiro

Parque Nacional da Peneda-Gerês

A face do mundo...



"(...) Só a imaginação transforma, transfigura e remodela a face do mundo."



Eduardo Lourenço, ensaísta, in "O Labirinto da Saudade", Publicações Dom Quixote, Novembro de 1988



"Sea Palette", fotografia de Yuri B., in http://www.photoforum.ru/

Sonho anulado...



"- Cure-me de sonhar, Doutor.
- Sonhar é uma cura.
- Um sonhadeiro anda por aí, por lonjuras e aventuras, sei lá fazendo o quê e com quem...Não haverá um remédio que me anule o sonho?"

in "Venenos de Deus, Remédios do Diabo", livro de Mia Couto, editora Caminho

Fotografia sem título da autoria de Swiatek Wojtkowiak, in http://www.photoforum.ru/

Luz de (a)fecto

"deixar o musgo da harmonia cobrir
a pedra por polir dentro de nós."
Poema de Icendul
Foto de V. Solteiro
Parque Nacional da Peneda-Gerês

À porta do amor...


"Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
figas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizede um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam á porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.


Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.


Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?"


"Seria o Amor Português - Variações sobre um fado", poema de Fernando Assis Pacheco


"Magic door", fotografia de Max Lomov, in http://www.photoforum.ru/

Assim se vive...


"Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...


Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...]"


"Epígrafe", poema de Eugénio de Castro

"The sun, wind and sand", fotografia de autor não identificado, retirada de http://www.photoforum.ru/