Ondjaki:um chão fértil de lendas


Seria um erro do tamanho do imbondeiro considerar Ondjaki um mero aprendiz de feiticeiro na arte de criar e colar palavras à tela da vida. Apesar de contar com vinte e quatro primaveras (data de edição do livro em Portugal) este escrevinha-dor de ilusões e emoções é, pela limpidez e transparência com que nos revela os seus muitos mundos e pela fina e brilhante ironia com que tece o novelo das suas estórias, um caso nada casual naquilo que - erradamente, do meu ponto de vista - se convencionou designar como literatura dos Palop's (Países de Língua Oficial Portuguesa).

Ainda que as suas fábulas estejam indelevelmente ancoradas a um chão fértil de lendas, crenças, ritos e mitos, Ondjaki não deve ser reduzido a um mero sucedâneo ou clone do universo de Mia Couto. Não por acaso, o mais representativo e ilustre porta-estandarte da actual literatura moçambicana declara, no prefácio deste "Momentos de Aqui", que "este estório-dependente não escreve na página mas na própria voz". Daí, a sua individualidade, a personalização de um estilo, a autonomia, a liberdade de pensar, criar e agir. Os sentimentos que as suas personagens exalam são de um beleza e pureza que a cave mais escura do nosso pensamento se ilumina.

Dividido em duas partes distintas, a saber, "Os Momentos" e as "Noites de Aqui", este livro de pequeninos contos mais se assemelha a um álbum de recordações de infância, a uma caderneta de lembranças e esperanças, a um quadro de memórias de um tempo que, de tão intenso e quente, ainda hoje vive colado á pele.

O que mais fascina quem se embrenha por esta escrita acolhedora e terna é a originalidade e a indisfarçável ternura com que Ondjaki compõe as suas personagens (a Tia Fatucha, o Padre Inácio - o Mata-Anjos, a Avó Ménha) e a sua extraordinária capacidade de construir ambientes que rapidamente alternam entre o azul cristalino das águas do mar e o negro manto da guerra.

O tempo passado...


Que melhor elogio se pode fazer a um livro do que declarar que ele nos ajudou, como uma bóia a um náufrago, a revisitar a infância?!


"(...) Cai a chuva, o vento desmancha as árvores desfolhadas, e dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado. Traz um cajado ao ombro, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente caminham os porcos, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. O homem que assim se aproxima, vago entre as cordas de chuva, é o meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de privações, de ignorância. E no entanto é um homem sábio, calado, que só abre a boca para dizer o indispensável. Fala tão pouco que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende algo como uma luz de aviso. Tem uma maneira estranha de olhar para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede que tem na frente. A sua cara parece ter sido talhada a enxó, fixa mas expressiva, e os olhos, pequenos e agudos, brilham de vez em quando como se alguma coisa em que estivesse a pensar tivesse sido definitivamente compreendida (...)."


in As Pequenas Memórias, José Saramago, pp 129-130, Editora Caminho, 2006

Peregrinos de líquidas estradas...


“Peregrinos de líquidas estradas. Peregrinos dos metálicos subúrbios, onde o grito mudo nos anestesia. Viajante das luas marítimas. Beijar-te, ter-te nos dedos e no calor ardente da pele. Acredito, amor, que a sensação de uma luminosidade percorre teu corpo navegante. Viajar contigo nas flores húmidas do bosque, no musgo sumarento dos ventos que te devastam o corpo. Descansar em cima do gigantesco nenúfar lavrado na tempestade.”


Al Berto, poeta

A luz dos sentimentos

"Na vida, é melhor estarmos desprevenidos para os sentimentos, assim a sua luz nos diga qual é a nossa vez."


Eduardo Sá, Psicólogo, in revista Notícias Magazine, 01.08.04

O peso de existir...


"(...) O homem, para ser humano, tem que ser desumano? O que é certo: ninguém tem ombro para suportar sozinho o peso de existir (...)."


Mia Couto, in "Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos", Editorial Caminho, 2001

Deixou um saco bordado...



"Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
e leva o nome bordado
num saco cheio de nada.

Triste vai Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
nem é Pedro Marinheiro
nem no mar é seu caminho.

Nem anda a branca gaivota
pescando peixes em terra
nem é de Pedro essa rota
dos barcos que vão à guerra.

Nem anda Pedro pescando
nem ao mar deitou a rede
no mar não anda lavrando
soldado a mão se despede
do campo que se faz verde
onde não anda ceifando
Pedro no mar navegando.

Onde não anda ceifando
já o campo se faz verde
e em cada hora se perde
cada hora que demora
Pedro no mar navegando.

E já Setembro é chegado
já o verão vai passando.
Não é Pedro pescador
nem no mar vindimador
nem soldado vindimando
verde vinha vindimada.

Triste vai Pedro Soldado.
E leva o nome bordado
num ssaco cheio de nada.

Soldado número tal
só a morte é que foi dele.
Jaz morto. Ponto final.
O nome morreu com ele.

Deixou um saco bordado
e era Pedro Soldado."


"Romance de Pedro Soldado", poema de Manuel Alegre, Águeda, 1936

Os portadores do ódio

"Ninguém é melhor do que os outros quando se transforma em portador do ódio e da vingança."


Michel Sabbath, Patriarca Latino de Jerusalém

Ian Brown: música de causas, música com asas

http://blogs.guardian.co.uk/music/2007/08/wheres_the_politics_in_pop.html

http://news.independent.co.uk/uk/politics/article2871522.ece

A vindima dos sonhos



"O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova..."



"Confiança", poema de Miguel Torga, in "Miguel Torga - Cântico do Homem", edição Visão/Jornal de Letras

Vale a pena ler esta crónica sobre o escritor, publicada no JN: http://jn.sapo.pt/2007/08/22/pais/miguel_torga.html

A paleta do silêncio



De Santa Bárbara
vê-se o sol
a escorregar
pelo fio
do horizonte
e cair
qual gota
de orvalho
nas margens
do silêncio

É um silêncio
raro e perfeito
povoado
de vazio
e de luz
aquele
que se sente
aqui
no cume
da serra

Fugidias
sombras
correm
pelas giestas
e carrascos
como cães
esfaimados
em busca
de uma furtiva
perdiz

Quando as cores
do poente
se derramam
pelo leito
refulgente
do Douro
o rio de xisto
que veste
as terras de
tons ocres
embebeda-me
os sentidos
e inebria-me
de prazer

É com essa paleta
e nessas águas
subterrâneas
que crio novas simetrias



V. Solteiro, Mós do Douro, 2004

Imagem retirada daqui: http://fozcoajer.planetaclix.pt/fotos_pano.htm

Entre as altas espigas de oiro ardente...



"Deu agora meio-dia; o sol é quente

Beijando a urze triste dos outeiros.

Nas ravinas do monte andam ceifeiros

Na faina, alegres, desde o sol nascente.


Cantam as raparigas, brandamente,

Brilham os olhos negros, feiticeiros;

E há perfis delicados e trigueiros

Entre as altas espigas de oiro ardente.


A terra prende aos dedos sensuais

A cabeleira loira dos trigais

Sob a bênção dulcíssima dos Céus.


Há gritos arrastados de cantifas...

E eu sou uma daquelas raparigas...

E tu passas e dizes: 'Salve-os Deus!'"

"Alentejano", poema de Florbela Espanca, Vila Viçosa, 1894-1930
Imagem: óleo de Silva Porto

Estar vivo é estar á morte!


"Os sentimentos são a nossa luz. Ajudam-nos a perceber que estar vivo é aceitar todas as imprevisibilidades, sobretudo aquelas que aparecem sem a vez marcada."

Eduardo Sá, Psicólogo, in revista Notícias Magazine, 01.08.04

Para tornar possível a esperança...



"Enquanto um ser humano não se puder sentir em casa em qualquer parte do mundo, continuaremos expulsos da terra, longe do céu, ameaçados por 'habitantes de outros planetas' que teimamos em construir no espaço que nos foi dado para dele cuidarmos como jardim de todos."


Frei Bento Domingues, in Público, 21.03.04, numa crónica intitulada "Para tornar possível a esperança..."

Quanto pesa o amor?



21 gramas é o título de um filme soberbo: poderosamente eficaz no seu argumento, magistralmente interpretado por um naipe de actores e actrizes de "fina película" - entre os quais, Benicio del Toro, Sean Pean e Naomi Wats -, este monumento cinematográfico erigido e realizado por um quase ilustre desconhecido - Alexandro Iñarratu - discorre sobre a indecifrável natureza humana.
21 gramas tem a leveza e a beleza de um martim-pescador. A forma como trata a premência da vida num ser que se encontra às portas da morte, é magistral. Ali, não há lugar a miserabilismos nem a compaixão. Tudo é instinto. Tudo é sentimento. Em estado puro e bruto.

Eu sou a natureza!


"A cruz dizia à terra onde assentava,
Ao vale obscuro, ao monte áspero e mudo:
- Que és tu, abismo e jaula, aonde tudo
Vive na dor, e em luta cega e brava?

Sempre em trabalho, condenada escrava,
Que fazes tu de grande e bom, contudo?
Resignada, és só lodo informe e rudo;
Revoltosa, és só fogo e hórrida lava...

Mas a mim não há alta e livre serra
Que me possa igualar!...amor, firmeza,
Sou eu só: sou a paz, tu és a guerra!

Sou o espírito, a luz!...tu és tristeza,
Ó lodo escuro e vil! - Porém a terra
Respondeu: Cruz, eu sou a natureza!"


"Diálogo", poema de Antero de Quental, Ponta Delgada, São Miguel, Açores, 1842-1891

The Gift: a voz prenda, a voz que prende...

Rostos de sol e vento



"Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo."


"Pátria", poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, Porto, 1919-2004

Imagem: pintura de Modigliani



Mário Viegas:a voz presente, a voz pressente...

Rosa dos ventos



"Em que rosa-dos-ventos há um caminho

português?

Um brumoso caminho

de inédita aventura."


Miguel Torga, escritor

A formiga



"Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos."


"Aforismo", poema de José Craveirinha, Lourenço Marques, Maputo, 1922-2004

Gaiteiros de Lisboa:o som da tradição

Até que o muro fenda...


"Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que não me cale:
Até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a sua dor prescruta,
maior glória tem em ter esperança."


"Acusam-me de Mágoa e Desalento", poema de Carlos de Oliveira, Belém do Pará, Brasil, 1921-1981

Somos os primeiros...nas desigualdades sociais


De acordo com os dados do Eurostat, citados na edição de ontem do Jornal de Negócios, Portugal continua a ser o país da União Europeia a quinze cujo fosso entre ricos e pobres é maior. Os últimos dados disponíveis (referentes a 2005) mostram que os 20% mais ricos apresentam rendimentos mais de oito vezes superiores aos dos 20% mais pobres, quando na União Europeia esta distância não chega a ser multiplicada por cinco. E enquanto a tendência geral na Europa foi de diminuição deste fosso, nos últimos dez anos Portugal faz parte dos poucos países que agravaram as desigualdades, tendo mesmo registado o maior aumento.

http://www.jornaldenegocios.pt/default.asp?Session=&CpContentId=300970

http://resistir.info/portugal/desigualdades.html

A (de)formação participativa


"O Neoliberalismo actua melhor quando existe uma democracia eleitoral formal, mas desde que a população seja desviada das fontes de informação e dos debates públicos que habilitam à formação participativa de uma tomada de decisão (...). É mais conveniente restringir a acção dos governos à tarefa de proteger a propriedade privada e fazer cumprir os contratos, e limitar o debate político a questões menores. (As questões importantes, como sejam, a produção e distribuição dos recursos e a organização social devem ser determinados pelas forças do mercado)."


Robert W. McChesney, no prefácio ao livro de Noam Chomsky, "Neoliberalismo e Ordem Global - Crítica do Lucro", Editorial Notícias, Setembro de 2000

Tudo se compra, tudo se vende, até os valores...


"Tudo se privatiza, como quer o neoliberalismo. A escola também. A família já não actua. Não há uma protecção estatal, como as nossas democracias a conceberam nos finais do século XIX, como garantia, e tudo é deixado à iniciativa privada de um cidadão qualquer. Qual o interesse do cidadão qualquer que quer pôr a funcionar uma televisão? Fazer dinheiro. Não educar o povo de Trás-os-Montes (...) . Recuso-me a pensar no desaparecimento total do Estado, em favor da iniciativa privada. Seria o desastre. Viu-se, até numa democracia muito forte, como a dos EUA: vem o furacão 'Katrina' sobre Nova orleães e o Estado não está lá. O 'Katrina' é, nesse plano, quase uma metáfora."


António Tabucchi, in jornal Público, suplemento Mil Folhas, in 22.04.06, a propósito do seu novo livro, "Tristano Morre", Editora Dom Quixote

A vida em sala de espera



"Hoje a vida tem o sorriso
dentífrico dos candidatos
e pelas ruas nos aponta
o céu em múltiplos retratos

céu não póstumo ou merecido
em cruel sala de espera
mas entre parêntesis de fogo
festiva véspera de guerra

Teor de montras a vida
com democrático humor
a todos deixa viver
a sua dose de flor

Publicitária a vida faz
sua campanha eleitoral
prato de vida apetitosa
temperada com humano sal

Televisor férias de verão
tira a vida do seu discurso
e um amor provençal
que nos domestica o uros

Popular a vida é toda
pétalas de apertos de mão
Que meus versos me vinguem
de cair nesse alçapão!"


"A Política do Dia", poema de Natália Correia, Fajã de Baixo, São Miguel, Açores, 1923-1993

A nossa caminhada...


"Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos...Ninguém nos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas."


"Soneto Imperfeito da Caminhada Perfeita", poema de Sidónio Muralha, Lisboa. 1920-1982

Há amor...

Saudades do outono...


Quando os teus pequeninos olhos de berlinde reflectem o poente já cansado pelos dias de estio e os primeiros sinais do outono se revelam pela fresta do pensamento, assalta-me um desejo irreprimível de ser vento e chuva, névoa e bruma, e beijar os teus ombros, a tua face e o teu pescoço como se a pele que te protege das agruras do mundo fosse a casca de um carvalho à espera de ser despida pelo desejo...

Donna Maria: vamos pela vida, lado a lado...

Estaremos sempre sozinhos...



"Decididamente, somos aquilo que há muito fomos feitos. Decididamente, voltamos sempre ao local do crime, para sermos novamente nós mesmos. Para constatarmos num momento de lucidez que amamos perdidamente os outros, mas que nunca seremos outro que não nós mesmos. E por isso mesmo, na hora da verdade, estaremos sempre sozinhos."

Isabel Stilwell, Notícias Magazine, 15.09.02


Sara Tavares: a voz que balança, a voz que é esperança

Devagarinho, a vida ilumina-se...


"Gosto de viver devagar. De saborear o tempo, o fluir vagaroso do tempo nas pequenas coisas, nos pequenos gestos. Houve uma altura da minha vida em que não punha sequer data nas cartas, nos textos que escrevia, como se ele não existisse. Aliás, a época do ter, ter pressa, ter bens, ter poder, vai passar. Tudo cansa. As pessoas vão querer outras coisas, outros valores, vão recuperar o ser. Está a surgir uma espécie de fome do solidário, do espiritual, do humano, do afectivo. As pessoas não aguentam o vazio. O vazio fá-las sentir pobres. Há muita pobreza e muito exibicionismo de riqueza à nossa volta, muita barraca, muito pediente, muito abandonado."


Matilde Rosa Araújo, escritora


Desperdiçamo-nos



"Às vezes, desperdiçamo-nos. O nosso verdadeiro desejo é deixar de viver exclusivamente para nós próprios."


Saul Bellow, escritor norte-americano, 1915-2005

Somos Terra


"Hoje vivemos uma crise dos fundamentos de nossa convivência pessoal, nacional e mundial. Se olharmos a Terra como um todo, percebemos que quase nada funciona a contento. A Terra está doente e muito doente. E como somos, enquanto humanos, também Terra (homem vem de húmus=terra fértil), sentimo-noss todos, de certa forma, doentes. A percepção que temos é de que não podemos continuar neste caminho, pois ele levar-nos-á ao abismo. Fomos tão insensatos nas últimas gerações que construímos o princípio de auto-destruição. Não é fantasia hollywoodiana.Temos condições de destruir várias vezes a biosfera e impossibilitar o projecto planetário humano. Desta vez, não haverá uma arca de Noé que salve a alguns e deixa perecer os demais. O destino da Terra e da humanidade coincidem: ou nos salvamos juntos ou sucumbimos juntos.(...) O resultado desta lógica da competição de todos com todos é duplo: de um lado, uma acumulação fantástica de benefícios em poucos grupos e de outro, uma exclusão fantástica da maioria das pessoas, dos grupos e das nações.(...) Actualmente, o grande crime da humanidade é o da exclusão social. Por todas as partes reina fome crónica, aumento das doenças antes erradicadas, depredação dos recursos limitados da natureza e um ambiente geral de violência, de opressão e de guerra.(...) Esse tipo de economia da troca competitiva mostra-se altamente destrutiva, onde quer que ela penetre e se imponha. Ela pode levar-nos ao destino dos dinossauros.Ou mudamos ou morremos, essa é a alternativa. Onde buscar o princípio articulador de uma outra sociabilidade, de um novo sonho para frente? Em momentos de crise total, precisamos consultar a fonte originária de tudo, a natureza. Que ela nos ensina? Ela nos ensina, foi o que a ciência já há um século identificou, que a lei básica do universo, não é a competição que divide e exclui, mas a cooperação que soma e inclui. Todas as energias, todos os elementos, todos os seres vivos, desde as bactérias e vírus, até os seres mais complexos, somos inter-retro-relacionados e, por isso, interdependentes. Uma teia de conexões envolve-nos por todos os lados, fazendo-nos seres cooperativos e solidários. Quer queiramos ou não, pois essa é a lei do universo. Por causa desta teia, chegamos até aqui e poderemos ter futuro.
(...) Para conviver humanamente, inventamos a economia, a política, a cultura, a ética e a religião. Mas nos últimos séculos, fizemo-lo sob a inspiração da competição que gera o individualismo. Esse tempo acabou. Agora temos que inaugurar a inspiração da cooperação que gera a comunidade e a participação de todos em tudo o que interessa a todos (...)."

Excertos de "Ou mudamos ou morremos", artigo de Leonardo Boff, Teólogo, Filósofo, Ecologista, Professor Emérito da Universidade do Rio de Janeiro e homem de todas as fraternidades

Artigo completo disponível aqui:


http://www.acaodacidadania.com.br/templates/acao/novo/publicacao/publicacao.asp?cod_Canal=6&cod_Publicacao=1255

Para saber mais sobre o autor:
http://www.leonardoboff.com/

Lua-cheia de luz


"Uma lua no céu apareceu
Cheia e branca; foi quando, emocionada
A mulher a meu lado estremeceu
E se entregou sem que eu dissesse nada.

Larguei-as pela jovem madrugada
Ambas cheias e brancas e sem véu
Perdida uma, a outra abandonada
Uma nua na terra, outra no céu.

Mas não partira delas; a mais louca
Apaixonou-me o pensamento; dei-o
Feliz - eu de amor pouco e vida pouca

Mas que tinha deixado em meu enleio
Um sorriso de carne em sua boca
Uma gota de leite no seu seio."


"Soneto de Despedida", de Vinicius de Moraes, escrito no Rio de Janeiro, 1940, editado no "Livro de Sonetos" pela Companhia das Letras, 1991

Dar oportunidade à Paz!

Ana Moura: a voz que nunca se perde...

Onde foi que nos perdemos?...



"Aconteceu,
Eu não estava à tua espera
E tu não me procuravas,
Nem sabias quem eu era,
Eu estava ali
Só porque tinha que estar,
E tu chegaste
Porque tinhas que chegar,
Olhei para ti,
O mundo inteiro parou,
Nesse instante a minha vida
mudou,

Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos
O que foi que aconteceu

Aconteceu,
chama-lhe sorte ou azar,
Eu não estava à tua espera
E tu não voltaste a passar
Nunca senti
Bater o meu coração
Como senti
Ao sentir a tua mão,
Na tua boca
O tempo voltou atrás,
E se foi louca essa loucura,
Essa loucura foi paz

Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos
O que foi que aconteceu?"



Letra e Música: Tózé Brito
Intérprete: Ana Moura
Álbum: Aconteceu, 2004

A música cola-se á pele...


É difícil ficar indiferente perante o namoro da música ás palavras.
É uma relação intensa e apaixonada esta que se tece quando o sol da voz ilumina a corda em que se equilibra a vida. Uma vida feita de muitos timbres e de muitos compassos. Pautas que se vão folheando com os dedos andarilhos em busca de uma felicidade que sabemos arredia e evanescente.
As palavras encostam-se á música, acariciam-na no seu ventre, beijam o seu dorso e enlaçam-se em anéis de fogo.
Há uma música feita de muitas músicas que anda a brincar dentro da minha cabeça...

Timidamente, ela cola-se á pele com sofreguidão, como se o tempo fosse irrespirável nos acordes dolentes da guitarra.
Sabe bem estar sim, deitado com as palavras e com a música, e vê-las amarrarem-se e amarem-se como se não houvesse amanhã...
Imagem retirada daqui: http://www.inforeso.com/musica/

O relevo da (des)humanidade


"O mundo da exclusão social parece ser, na actualidade, o espaço propício ao aparecimento dos fenómenos de discriminação e de segregação, desenvolvendo-se em relação a eles, fácil e espontaneamente, a xenofobia e as diversas modalidades de racismo. Perdendo a sua tradicional integração e introduzindo contínuas e cerradas fronteiras no seu próprio interior, entre humanidade e desumanidade, as sociedades contemporâneas são decididamente espaços onde se afirma a exclusão. Tendem a ser excluídos determinados grupos sociais, através de um processo de etnicização."


António Teixeira Fernandes, in "O Estado Democrático e a Cidadania"

As fronteiras da Liberdade


Pertencemos a tudo e a todos...


"(...) A noção e a consciência plena da irrelevância individual, da minha própria irrelevância, do facto de tudo aquilo que eu escrevo acabar por ser esquecido, mais tarde ou mais cedo (e de eu próprio ser esquecido, dado tudo tender para o esquecimento, mesmo as memórias, aquilo de que hoje me lembro e de que todos nos lembramos), o facto de a própria eternidade caminhar a passos largos no sentido do esquecimento, tudo isso me dá uma enorme tranquilidade e uma enorme serenidade. (...) Por mais que nós esbracejemos, estamos a diluir-nos em tudo e pertencemos a tudo e o resto é qualquer coisa de completamente irrelevante."

Manuel António Pina, poeta, escritor e jornalista, em entrevista á revista "Ler", nº 68, 2006

O sol morreu no mar...



"Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu a luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possui a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar."


"Epitáfio", de Vinicius de Moraes, escrito em Oxford, 1939, editado no "Livro de Sonetos" pela Companhia das Letras, 1991

Educação ambiental:alavanca de mudança


"(...) A escola, no seu processo de aproximação à comunidade deverá abrir-se ao exterior através de articulações com o meio em que se insere uma vez que isoladamente não poderá acompanhar o ritmo acelerado da mudança da sociedade contemporânea. Esta amplificação do conceito de espaço educativo torna-se pois inquestionável no novo modelo de escola para os cidadãos do séc. XXI. Um século que se nos apresenta crítico em termos ambientais, e para o qual a Educação Ambiental poderá contribuir para a compreensão e resolução das situações de crise relacionada com os problemas sócioambientais locais e globais (...)."

J. Ramos Pinto, in Educação Ambiental em Portugal: Raízes, influências, protagonistas e principais acções

Os duros caminhos da realidade


"Continuamos presos a caminhos que a realidade e a ciência já se cansaram de dizer que são insustentáveis. Custará cada vez mais caro."

Washington Novaes, in Estado de São Paulo, 03.08.07

Aquecimento global: o desafio está nas nossas mãos


"(...) Se quisermos resolver com seriedade o problema do aquecimento global, e da nossa sustentabilidade neste planeta, todo o esforço da sociedade deve ser empreendido no sentido de parar o desmatamento imediatamente, já! Se obtivermos êxito neste primeiro desafio, aí sim poderemos partir para os próximos: fontes alternativas de energia, projetos de seqüestro do carbono para reduzir os índices aos níveis da era pré-industrial permitindo a regeneração de florestas nativas, plantando árvores etc. Se não conseguirmos vencer nem este primeiro desafio, que não depende de avanços tecnológicos e tampouco gera desenvolvimento - só dependem do simples cumprimento das leis - podemos nos preparar para o pior, que nos espera num futuro bem próximo. Preservar o que resta de nossas florestas é a maneira mais racional e óbvia de prolongar nossa vida na Terra."

Germano Woehl Jr, Doutor em Física e Ambientalista. Dirigente do Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade

Ecodebate.com.br, 07.08.07. Artigo originalmente publicado pela Agência de Informação Frei Tito para a América Latina

http://www.ecodebate.com.br/Principal_vis.asp?cod=5954&cat=

Bens essenciais não são para todos...


"Moradores de zonas rurais, populações indígenas, afrodescendentes e pobres são os que mais enfrentam dificuldades de acesso à água e saneamento na América Latina. (...) De acordo com os dados, o acesso inadequado ao saneamento e à água potável afeta 55,4% e 49,3%, respectivamente, do grupo de crianças e adolescentes até 18 anos da população dos 20% mais pobres. Esses índices baixam para 23,2% e 17,9%, respectivamente, na população dos 20% mais ricos. (...) O problema se agrava quando se trata de acesso desses grupos a saneamento em zonas rurais, onde a carência dos dois serviços afeta 84,3% de indígenas e afrodescendentes até 18 anos, enquanto para o resto da população do mesmo segmento o índice cai para 66,1% (...)."


Ecodebate.com.br 06.08.07, com Agência Brasil

http://www.ecodebate.com.br/Principal_vis.asp?cod=5959&cat=

Da vida perdemos o sentido...


"Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido..."


"Perfilados de medo", poema de Alexandre O' Neill, Lisboa, 1924-1986
Fotografia do realizador iraniano Abbas Kiarostami retirada daqui:

Muita coisa feita de muito tempo...


"A vida é uma espécie de corredor que percorremos sem cessar. Por onde passamos fica um pouco de nós. Aquele pedaço que não trazemos e cuja perda sentimos tanto. (...) É muita coisa feita de muito tempo."


"Zé de Bragança", in Notícias Magazine, 19.03.2006

Filarmónica Gil: a poeira de uma vida deve ter algum sentido...

Palavras vestidas de cinzas


Disformes e oblíquas
bocas expelem
palavras de cinza

Erodidas pelo vento
e pela corrosão das imagens

as suas línguas bífidas
atraem incautos insectos

Águas tépidas e cansadas
povoadas de limos

e de nenúfares
espraiam-se
pelas saliências

dos seus contornos

A cal que lhes brota

das fissuras dos lábios
alimenta o pântano
onde a apatia se compraz
e a submissão se deleita

O deserto que semeiam
com a saliva adjectivada
de inócuos vocábulos
é húmus para a indiferença

A poeira que levantam
com o seu olímpico desdém
e a expressão dúbia

no seu cínico riso
são mais que um lembrete

ou um aviso -

são sementes de inacção



V. Solteiro, 05.08.07


Imagem: Peça de um conjunto de trabalhos de Tânia Bloomfield, intitulados "Da cinza à cinza, do pó ao pó". Vale a pena vê-los em:


http://www.artenauniversidade.ufpr.br/muvi/artistas/t/tania_bloomfield/tania_bloomfield.htm

Um mundo por nascer...



"Levanta a fronte, levanta!

Que toda a gente saiba de quem é.
Não faças dela a cinza duma chama
nem planta nua dum pé
abrindo covas na lama.

Levanta a fronte, levanta!

Não faças dela um espelho a descoberto
onde o quebrado corpo se despoja,
nem chão intérmino e deserto
em que a dor se roja.

Levanta a fronte, levanta!

Para quê essas sombras que te inundam,
sombras roxas e lôbregas de becos?
Para quê essas rugas que se afundam
como leitos de rios secos?

Levanta a fronte, levanta!

Foi a cela que te anoiteceu
com charcos de medo e gelo?
Quem trouxe um sonho como o teu,
jamais deve perdê-lo.

Levanta a fronte, levanta!

Quem ergue a fronte, levanta a voz,
levanta o sonho num facho a arder:
Ele é maior que tu e todos nós
- um mundo por nascer."


"Coluna", poema de Luís Veiga Leitão, Moimenta da Beira, 1915-1987

http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=2484

Caíram espigas da haste...



"Trago notícias da fome

que corre nos campos tristes:

soltou-se a fúria do vento

e tu, miséria, persistes.

Tristes notícias vos dou:

caíram espigas da haste,

foi-se o galope do vento

e tu, miséria, ficaste.

Foi-se a noite, foi-se o dia,

fugiu a cor ás estrelas:

e, estrela nos campos tristes,

só tu, miséria, nos velas."



"O Viandante", poema de carlos de Oliveira, Belém do Pará, Brasil, 1921, Lisboa, 1981

Húmus



"Cada homem vai até ao interior da terra e até ao âmago do céu."

Raúl Brandão, in "Húmus"

Mafalda Veiga: a voz da alvorada

A principal utopia é a liberdade



"A principal utopia é a liberdade porque o ser humano não se fez para ser livre mas para estar aprisionado dentro de si próprio."


Luís Osório, jornalista, in revista DNA, sobre o livro de António Lobo Antunes intitulado “Livro de Crónicas”
Imagem retirada daqui: http://www.marciomelo.com/

A modernidade travestida



"Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.
Meu avô já vivia numa época nova.
Meu neto talvez ainda viva na antiga.

A carne nova come-se com velhos garfos.

Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques
Nem os aviões sobre os telhados
Nem os bombardeiros.

As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca."


"Os tempos Modernos", poema de Bertold Brecht, Augsburg, Baviera, Alemanha, 1898-1956 - tradução de Arnaldo Saraiva

Uma luz que irradia...


"Um amigo alegre é como um dia de sol, espalhando luz e claridade à sua volta."

Sir John Lubbock (1803-1865). Astrónomo e matemático inglês
.

Um sítio comprometido com o social


Engagemedia é um sítio na rede com vídeos sobre justiça social e questões ambientais que dizem respeito à Austrália, ao Sudeste Asiático e ao Pacífico. Ou seja: que dizem respeito a todo o mundo. Vale a pena conhecer...

http://www.engagemedia.org/

Como um pássaro sem asas...


"Era ele que erguia as casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.

De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que a sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que o seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que os seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
'Convençam-no' do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras se seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que reflectia
Mas o que via o operário
O patrão nunca o veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objectos
Produtos, manufacturas
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisas que via
Misteriosamente havia
A marca da sua mão
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Como o mêdo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


"O Operário em Construção", poema de Vinícius de Moraes, Rio de Janeiro, 1913-1980

Imagem retirada daqui: http://www.fotogarrafa.com.br/