Os resíduos da vida



"A gente progride muito mais com a comunhão e a contemplação do que com a contradição. A nossa vida é como a história: é feita com os resíduos de tudo."

António Alçada Baptista, escritor

O rumor do sangue



Os braços
do fulgor
estendem
as suas
pétalas
pelas crinas
da aurora

O rumor
selvagem
do sangue
fervilha
no frágil
corpo
do colibri

Gotículas
de seiva
desprendem-se
das áleas
e galopam
pelos interstícios
do tronco

em busca
das nervuras
onde possam
apaziguar
a sua sede

V. Solteiro, 31.05.07


O teu olhar puríssimo...



"Ali, onde as rosas se doavam
A quem, pousando a mão, se debruçasse,
Ficou uma saudade sem história
Nem dor...Só de alegria
O sentimento pleno a quem ousasse
Colhê-las na memória.
Ninguém perceberá morta a distância,
Nem o aroma breve que evolavam.

Só a saudade de uma luz perfeita,
Descendo na minha alma a minha vida,
Descobre, junto a uma pétala desfeita,
O teu olhar puríssimo."

"Anoitecendo", poema de Ruy Cinatti, in "A Vida Recomeça"

Défice de cidadania...



"Manteve-se uma certa cultura de distância em relação aos cidadãos e sobretudo uma cultura que não coloca a cidadania entre as primeiras prioridades de qualquer lugar público, na justiça ou fora dela, na educação ou nos hospitais. Temos ainda um grande déficit de interiorização dos direitos dos cidadãos."

Urbano Tavares Rodrigues, escritor

A voz do amor

La vie en rose...



La Vie En Rose, filme de Olivier Dahan, é mais do que uma película biográfica. É mais do que um ensaio trágico e dramático. É muito mais do que um musical. É a história de uma mulher indomável que, contra ventos e marés, lutou por aquilo que nos faz viver: a felicidade. Para quem, como eu, estava pouco familiarizado com a vida e a obra de Edith Piaf, o tributo que lhe é prestado neste filme (o desempenho de Marion Cotillard é espantoso!) aguçou-me a curiosidade para a descobrir com mais calma e cuidado. Penso que não há melhor homenagem que lhe possa prestar. Curvo-me perante a sua voz, a sua força e a sua coragem. Que mais se pode pedir a um filme senão que nos emocione até às lágrimas?
Ainda que a vida não seja rosa, nem violeta ou azul, compete a cada um de nós dar-lhe o colorido que encha a sua paleta de tons. Não importa que a tela se preencha só de preto. O preto é uma cor como outra qualquer. O segredo é amarmos a vida de uma forma apaixonada e intensa. Sem receios. Sem artificialismos. Acreditar até ao fim. Acreditar no fim. Porque ela é o tudo e o nada. Ela é que nos reconcilia com a morte.

Não hesites!



"Vou falar-lhes de um reino maravilhoso. Embora haja muita gente que diz que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite."


Miguel Torga, escritor

A penumbra do quotidiano


Apesar de tudo. De todos. Somos nós que tocamos a melodia com que é urdido o nosso destino...Nós. Laços desfeitos e descoloridos pela penumbra do quotidiano...

Cúmplices do terror


"Onze milhões de crianças morrem cada ano, por doenças ligadas à pobreza, malnutrição, fome, falta de água potável, diarreia. Tais mortes são imorais. Porque sabemos que isso vai acontecer nos próximos 12 meses, temos os meios de o remediar e não o fazemos, trata-se de um crime contra a Humanidade."

Pierre Sané, subdirector geral da Unesco, na Conferência da Comissão Nacional Justiça e Paz, que decorreu este fim de semana, em Lisboa

Contra a indiferença...


A situação no Darfur, Sudão, é catastrófica. 400 mil pessoas inocentes, homens, mulheres e crianças, foram mortas. Outras dezenas de milhar foram raptadas e torturadas. Despoletar uma intervenção decidida da ONU e da União Europeia no sentido de fazer cessar as hostilidades, proteger os refugiados, criar condições para o seu regresso a casa e assistir as populações deslocadas, famintas e doentes, é o objectivo de uma petição que está neste momento a decorrer e que pretende recolher cerca de um milhão de assinaturas até 1 de Junho. É pouco, mas é um pequenino passo contra a indiferença e a barbárie.

www.europetition-darfour.fr.

http://diariodigital.sapo.pt/dinheiro_digital/news.asp?id_news=81635

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=277812

Pacto com o humano


"Viver é saber fazer um pacto honrado com a nossa solidão."

António Alçada Baptista, escritor


http://pt.wikipedia.org/wiki/António_alçada_baptista

A galáxia do pensamento



Fulminante
e certeiro
como uma
adaga
o lustro
do cometa
trespassa
a galáxia
do pensamento

Faúlhas de
palavras
pousam
levemente
na pele
queimando
o passado
que clama

Incandescentes
as mãos
agarram-se
às cordas
que sustêm
o presente

o ar-dor
sussurra
renovadas
constelações

V. Solteiro, 26.05.07



A nossa natureza



"O vazio é apenas a outra face da totalidade, não se pode provar que haja um sentido para o mundo. O silêncio perante a natureza é um dos caminhos mais importantes para podermos afrontar esse abismo, o da imensidão da natureza e do nada que somos."

José Mattoso, Historiador

Hoje é o dia de todos os dias!

Magnólia



As pétalas
da caravela
desvelam
aromas
intensos
e eternos

Semente
Raiz
Haste
Corola

Estas são
as coordenadas
que tacteio
no húmus
da viagem

É nesse porto
de pólen
que me abrigo
das primaveris
tempestades

É nesse cais
onde os silêncios
se atracam
como lapas à rocha
que largo
todas as âncoras
rumo a Oriente

Liberta
das amarras
do medo
a brisa
sussurra
utopias
às asas
do dia

É então
que a proa
desse batel
carregado
de maresia
revela
aos embarcadiços
todos os fulgores

As flores da
magnólia


V. Solteiro, 24.05.07

A cabeça cheia de estrelas...



"Vai vida na madrugada fria.


O teu amante fica,

na posse deste momento que foi teu,

amorfo e sem limites como um anjo;

a cabeça cheia de estrelas...

Fica abraçado a esta poeira que teu pé levantou.

Fica inútil e hirto como um deus,

desfalecendo na raiva de não poder seguir-te!"



"Adormecer", poema de Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

Um sulco na mente



"Que importa - ao fim - se não a qualidade da afeição que traçou sulco na mente."


Ezra Pound, poeta




Arqueologia do crepúsculo



Os ramos
que a vida
laboriosamente
entris-tece
reflectem
com exactidão
os contornos
do crepúsculo
nas margens
do rio

Subtis
as correntes
dilatam-se
pelos poros
do ar
e pelas entranhas
do vento

em busca
de arqueológicos
vestígios
desse líquido
aurífero e solar
que inebria
o mais gélido
dos firmamentos

V. Solteiro, 22.05.07

As ondas nunca se querem letárgicas...



(um post dedicado ao Amigo açoriano que não gosta de mar manso ou águas tépidas)



"Poente de esmeralda; um suave letargo
invade as águas, que suspiram frouxamente.
Eleva-se em minh' alma, à vista do mar largo,
a nostalgia indefinida do Ausente.

O Ausente! Canaã remota e suspirada
que azuleja não sei que mágica poesia...
Como se esfumam ante o olhar da Fantasia,
muito ao longe, jardins, castelos de balada!

Lenta, fana-se a luz no ar imaculado;
é um Saará de estanho o mar paralisado.
E enquanto, longamente, as vistas se sepultam

na imensidade azul, funda como um segredo,
onde povos, nações, ao nosso olhar se ocultam,
chora, órfã do Além, a alma no degredo..."



"Mar Largo", de Roberto de Mesquita (Santa Cruz, Flores, 1871-1923), in "O Faialense", Horta, 23 de Junho de 1901

Procurar uma estrela perdida...





"Para quê tanta, ambição, tanta vaidade? Procurar uma estrela perdida é quase sempre o que nos traz felicidade, são as coisas simples da vida..."

Maria Bethânia

Claves de Primavera



(Aos que amam os pássaros que se desprendem da árvore da música)

O canto
multicolor
e frenético
dos pássaros
ascende
vertiginoso
pelos tímpanos
dos plátanos

Atrevidos
os sons
alojam-se
na frondosa
ramagem
da sua copa
e aí fazem ninho

Atento
o maestro-sol
rege a sua
ornitológica
orquestra
com mão leve
e sibilina
espalhando
raízes de claves
pela textura
rugosa
da atmosfera

Afagadas pelo calor
dos seus ramos
as derradeiras
gotículas de orvalho
espreguiçam-se

Vagarosamente
descem
pela haste do dia
e espraiam-se
pelas colinas
de uma orquídea
antes de se condensarem
num último grito

de luz

V. Solteiro, 17.05.07

As encruzilhadas do caminho...


"Antigamente os homens olhavam para a mesma paisagem durante toda a sua vida, ou durante muito tempo. Até o viajante o fazia, pois qualquer caminho era longo. Isso obrigava a pensar sobre o próprio caminho. Agora, pelo contrário, tudo é rápido. Auto-estradas, comboios...Até a televisão nos mostra várias paisagens em poucos segundos. Não há tempo para reflectir sobre nada."

in "O Pintor de Batalhas, de Arturo Pérez Reverte

O menino inconsolável...


"A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome."


"Felicidade", poema de Jorge de Sena, in "Perseguição"

Olhar o outro...

"Sempre aprendemos a ser o que somos olhando para os outros. Não é preciso escondê-lo."


Vasco Prazeres, médico, in revista "Notícias Magazine", 13.09.98

Não mate a Poesia, não?



"Não! A Poesia não!

- Senhor tão bem vestido,
com a noiva pela mão,
de gravata cinzenta,
bengala de castão,
e uma doçura lenta
na voz de comoção:
não mate a Poesia, não?

Olhe que ela rodeia
os seus passos na areia.
Fechada, emparedada,
sobe consigo a escada.
E está sentada á mesa.
Não lhe chame tristeza...
Oh, não lhe chame nada!...

Era um país de inverno
e o senhor tinha frio.
A Poesia era longa,
corrente como um rio.
De chuva os seus cabelos,
abrindo-se em novelos
para os caudais do rio...

Era um país de espanto
e o senhor teve medo.
E deitou fogo à casa
erguida num rochedo,
e viu arder, correcto,
as asas transparentes
- as asas, não: o tecto.
E os braços estendidos
da sala, sem ruídos.
E os livros espalhados
nos cadeirões pasmados.
E viu-a procurar,
por entre as alamedas,
os olhos aguçados
das altas labaredas.

Era um país de inverno
e o senhor tinha frio.
A Poesia era longa,
corrente como um rio.
A Poesia era triste,
tão débil como um fio.

Era um país de espanto
e o bom senhor partiu..."


Poema do Bom Senhor, de Natércia Freire, in "Anel de Sete Pedras"

A usura dos dias



Côncava ressonância
vinda das mais
profundas
entranhas da Terra -
Assim se apresenta a poesia
ao excelentíssimo senhor
deserto

de ideias.

Umas vezes perdida;
Outras tantas achada;
Há também quem ache
(e outros ainda que procuram...)
que ela nada vale
- economicamente falando,
é claro!

(Facto que
bem vistas as coisas
também tem a sua poesia!)

À luz do meu
obscuro pensamento
ela vale o que vale
- bem mais
do que uma montanha
um planalto
ou até
- imaginem! -
uma planície de trigo.

Porque não?

Pois se ela é
além de pão
a própria boca.
A poesia é criatura
insaciável
indomável
inclassificável.

Ela é o Produto Interno Puro
em estado bruto.

Mas o que mais
me compraz
nas inauditas
faces da poesia
é o seu riso fácil
e os seus dentes
amarelecidos
pelo fumo dos cabarés
dançantes.

É verdade...

Ela não se mede
nem se enxerga!

Ela não se verga
nem se quantifica!

Ela não se fica
nem se mensura!

Ela é a própria usura
- dos dias,
bem entendido!

V. Solteiro, 16.05.07



As pálpebras das palavras


"(...) As esferográficas sujam as pálpebras das palavras, constelando os textos com belos gatafunhos


Estamos à espera que se dissipe o sono e despertem na dobra do lençol, os fantasmas quotidianos (...)."


Excerto de um poema do inesquecível Al Berto

Universo de sentimentos


"(...) A compreensão, o próprio esforço para compreender, salva-nos. Ou, pelo menos, consola, porque transforma o horror absurdo em leis serenas. (...) É duro assumir a ausência de sentimentos do universo, a sua natureza impiedosa."

in "O Pintor de Batalhas", de Arturo Pérez Reverte

Navio de solidão



Rosas içadas às nuvens
lembram-me mastros de ilusão

Palavras rentes à pele
reverberam âncoras de solidão

O ar sabe a sal
quando a respiração do vento
assobia nos ombros
e a aurora caprichosa
se deita com o luar

É nessas noites salpicadas
de anénomas e corais
que temos por geografia
toda a amurada
do corpo desse navio

V. Solteiro, 14.05.07


Nota: estas palavras foram (des)construídas a partir de um belo e sideral poema, acompanhado de uma não menos criativa imagem, postado no magnífico blog de Maria Costa, intitulado http://aluzdovoo.blogspot.com


O sentido (in)definido


"Se não acreditamos em coisa nenhuma, se nada tem sentido, se não podemos afirmar valor algum, tudo se torna possível e nada tem importância."

Camus, escritor e filósofo

Do imaginário


"A beleza é do imaginário e a imaginação é uma forma de se possuir o que não se possui."

Vergílio Ferreira, escritor

Com um brilhozinho nos olhos...



Porto de abraços. Porto do mundo. Perto do mundo. Perto do fundo. Perto de nós...

http://www.youtube.com/watch?v=pTHz_qf4jiI

Sussurro


"(...) Nos bosques, perdido, cortei um ramo escuro
e aos lábios, sedento, ergui o seu sussuro:
era talvez a voz da chuva soluçando,
um sino partido ou um coração cortado (...)"

Pablo Neruda, Soneto VI, in "Cem Sonetos de Amor"

A simetria do universo



"(...) Somos produto das regras ocultas que determinam casualidades: desde a simetria do Universo até ao momento em que se atravessa a sala de um museu."


in "O Pintor de Batalhas", de Arturo Pérez Reverte

Íntimo



"Sós
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros não se explicam:
arrefecem.

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de dentro se refracta,
nenhum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços,
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concentro,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se e desflorar-se,
é nosso, de mais ninguém."

"Poema do Homem Só", de António Gedeão

Os lábios da poesia



Secretas são as águas
que brotam das tuas fontes

Secretas são as mãos
laboriosas artesãs
que tecem destinos
na palma do dia

Secreta é a arte
que moldas
com os teus dedos
andarilhos
rodopiando
sobre o peito

Secreto é o corpo
que amadurece
neste tempo
em que a poesia
foi expulsa
dos lábios

V. Solteiro, 10.05.07

Morre-se como chama que tropeça no súbito escuro...


"Vivemos por um triz, morre-se como chama que tropeça no súbito escuro."

Mia Couto, escritor, poeta e biólogo

Secretas são as águas em que te deitas...



"Secreto me acho
e secreto me sentes
quando
secreto me julgas.
Impuro me reconheço
quando
o nosso silêncio
são vozes turbas.
Dúbio é o desejo
quando
não é transparente
a água em que se deita
precavidamente.
Clandestinos somos
quando
o que somos
teme a face que pesquisa.
Os olhos são claros
quando
a superfície do espelho
é lisa."

"Clandestinidade", de Fernando Namora

Uma folha que paira no ar...



"A maioria das pessoas são como uma folha que paira e revoluteia no ar, estremece e cai no chão. Mas algumas são como estrelas, que seguem um caminho definido:nenhum vento as desvia, têm dentro de si o seu guia e o seu caminho."

Herman Hesse, in "Siddhartha"

Aqui, onde o tempo encontra a Liberdade...



"Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade."

"Liberdade", poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Mar Novo"

A possibilidade do sonho



"É preciso estar atento e convencido de que há em tudo a possibilidade do sonho."

Ildásio Tavares, professor, escritor, tradutor e poeta brasileiro

http://www.revista.agulha.nom.br/il.html

O que vocês não sabem...


"Vocês não sabem
mas todas as manhãs me preparo
para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas e o cansaço
que usarei mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego.

(...)

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.

Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos
os quatro o jantar de três
(que o poeta inconsta na ficha do agregado).
Fingidamente satisfeito ensaio um largo bocejo
e do homem me dispo.

Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem de o encabidar
sem o amarrotar.

O poeta visto-o depois
e é com ele que amo,
escrevo versos
e faço filhos."


"O Que Vocês não Sabem Nem Imaginam", poema de Nélson Saúte, poeta moçambicano, publicado no livro intitulado "Nunca Mais é Sábado", Publicações Dom Quixote, 2004

O dorso dos amantes



Agita
a felicidade
antes de a
usares
ela é fruto
maduro
pendente
na árvore
do desejo


Despe-a
aos poucos
de ocos
artifícios
e deita-a
inclinada
sobre o dorso

Bebe de
um só trago
a volúpia
do sagrado
líquido
que escorre
pelo rebordo
da sua taça
prateada

Agarra
com firmeza
os anéis de fumo
que teimam
em escapar-se
das tuas mãos
trémulas
e inquietas

Ouve
a voz dos deuses
que se liquefaz
na bruma
dos amantes

Há um eco
que se desprende
dos flancos
da madrugada

Pela luz que irradia
sobre os cumes
da montanha
dir-se-ia prenhe
de vida

V. Solteiro, 06.05.07





O fogo da voz...



Ontem tive o privilégio de ver e ouvir aquele que é, por todas as razões e mais alguma, o maior intérprete musical português vivo. O homem de quem falo é um cidadão de Lisboa, de Portugal e do mundo. É, em simultâneo, um homem de uma e de todas as cidades. Chama-se Carlos de Carmo e tem, além de uma carreira brilhante e de uma voz que é em si uma parte crucial da história do fado, uma presença em palco que nos inebria e contagia com a sua simplicidade e humildade. Isso mesmo ficou patente quando, inopinadamente, as pilhas do microfone resolveram terminar o concerto antecipadamente e ele, sem se fazer rogado, encantou a plateia repleta do auditório da Academia de Música de Espinho, com a sua voz timbrada e melodiosa.

Foi um concerto absolutamente memorável. Dos melhores que tive o grato prazer de assistir em toda a minha vida. Pela partilha. Pelo intimismo. Pelo humor fino e refinado. Pela empatia com o público. Pelas história(s) de vida(s) que precediam cada tema. Pelos temas novos (ainda não editados) que interpretou. Pela beleza incomensurável das letras de alguns dos melhores poetas portugueses (Ary dos Santos, Pedro Homem de Melo, Fernando Pessoa). Pela genuinidade da música produzida por outros tantos criadores nacionais (António Vitorino de Almeida, Fernando Tordo).

Por tudo isto, mas principalmente por aquilo que aqui não é dito (pequeninos fogachos de felicidade que não têm correspondência em palavras), este concerto vai ficar gravado na minha memória como aquele em que o fogo da voz de um homem que canta como ninguém o fado crepitou e incendiou a noite fria de Espinho...

As labaredas da arte...



"A arte é como o incêndio - nasce daquilo que queima."

Jean-Luc Godard, realizador

Quantos sons existem no silêncio?



"O silêncio é a única arte que vale a pena. A única arte de viver."


Júlia Kristeva, escritora

Deslumbramento...



(Neruda que me perdoe, se tiver por onde...)

N
é letra
maiúscula
e erecta

N
são dedos
que percorrem
o frágil
e minúsculo
corpo
da poesia

N
é o abecedário
inteiro
gravado
a fogo
no teu peito

N é a geometria
do indizível

Soletro
cada
vocábulo
com o deleite
de quem sorve
as graínhas
do maracujá

Depois atiro
as sementes
para a terra
com a secreta
esperança
de que voltem
a germinar

vestidas de
deslumbramento

V. Solteiro, 04.05.07