Ó glória de mandar!


"ouvi agora senhores
uma história maldita
por entre vários favores]
e os esforços da Dita!
está aberto o processo!]
decorre agora a audiência!]
é o governo confesso
na Tribo da paciência.
e sentam-se todos à mesa]
tossem todos com gripe]
e a malta sempre mais tesa
serve em s. bento de vip.
saltam então os foguetes
e os martelos no chão!...
e o governo com banquetes
dá-nos a extrema-unção!...

voltámos à renascença.
são os sumos-sacerdotes.
e os generais de nascença
caiem todos dos escadotes!
ó glória de mandar
que esta vaidade atiça!
vão as rádios fechar
por uma santa justiça!...

e lá vem a Nau-Catrineta
que tem muito que contar...
a malta toda sem cheta
e a Outra sempre a roubar...

eh que manada d' archotes
que leva a malta nos cornos
com os sumo-sacerdotes
a recheá-los com pornos!...

mas...no frenesim dos saiotes
com suas damas felinas
caiem todos dos escadotes
deitam na cama as meninas...
e os rechonchudos com asas
assam perús nos salões
deixam vazias as casas
deixam fugir os ladrões!...

ó glória de mandar
que esta vaidade atiça!...
vão as ditas fechar
por uma santa-justiça?!"


"Na tribo da paciência", poema de Maria Azenha, in "PIM - Poemas de Intervenção e Manicómio", Universitária Editora, 2000
Cartoon retirado daqui: http://danielravena.blogspot.com/

8 comentários:

Mïr disse...

Tão mais que actual.... tão mais....

Um poema de intervenção, poemas como este fazem falta no panorama poético.

Boa tarde.

Obrigada pela partilha.

Hanah disse...

Essa mulher é maravilhosa, universal...

Ela descreve um microcosmo e revela o macrocosmo...

Obrigado pela partilha

bjos

lupussignatus disse...

Olá Mir!

Cento e um por cento de acordo... :)

lupussignatus disse...

Olá Hanah!

Essa descrição é fabulosa...e justíssima... :)

Marinha de Allegue disse...

Mandar non é doado.

Boa tarde e unha aperta.
:)

Luis Enrique disse...

Maravilhoso !! é a caneta de Maria da azenha, nem mais nem menos. increivelmente atualizado. Abrazo Lupussignatus

lupussignatus disse...

Bom dia Marinha!

Gosto deste poema. Porque desmascara o poder e os poderosos, nos seus tiques e toques.

Domingo radioso.

lupussignatus disse...

Bom dia Enrique!

Intemporal.

Abraço atlântico.